Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O prato feito de Próspero

A sofisticada Carolina e o clássico de Stratford tinham produzido uma mudança na rusticidade do migrante

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

08 de novembro de 2020 | 03h00

Próspero Teixeira tinha um bar em São Paulo. A localização do estabelecimento estava naquela terra de transição que temos em muitos pontos da metrópole: no cruzamento do crepúsculo de alguma área elegante combinada com a aurora de uma zona de desmanche urbano. Os paulistanos conhecem bem tais regiões: possuem o charme da mestiçagem econômica com seres que perambulam entre um e outro. Entre o bistrô que servia filé de Saint-Pierre sobre um leito de rúculas e o botecão-raiz que possibilita rabo de galo com Cynar, estava o pequeno negócio do nosso protagonista.

De origem modesta e muito trabalhador, Próspero servia um popular prato feito na região. O cardápio seguia a norma pétrea não escrita: a semana abria com virado à paulista, uma composição deliciosa para quem acredita que colesterol é uma invenção da indústria farmacêutica para vender remédios. No dia seguinte, despontava um aclamado bife a rolê. Havia cumbucas fumegantes de minifeijoada às quartas, macarrão às quintas e peixe frito para encerrar a semana útil. Havia um curinga universal e com mercado garantido: feijão, arroz e peito de frango. Surgiam trabalhadores braçais de prédios da região e ilhas de hipsters flanando na área cinzenta entre o popular e o sofisticado.

Era um dia de chuva torrencial. Parecia uma tempestade. Esbaforida entre sombrinha e capa, uma moça negra de olhar agudo pediu o prato escrito a giz em um quadro à porta. Quando foi ao caixa pagar, agradeceu de forma delicada e se despediu dizendo: “Somos feitos da matéria dos nossos sonhos”. Um trovão súbito pareceu sublinhar a ideia enunciada. Próspero sorriu como sempre o fazia quando não entendia algo. Ele lidava com um público variado e aprendeu que era melhor assim. A frase permaneceu na sua cabeça.

Pouco tempo depois, em uma tarde de sol, ela retornou ao bar para o macarrão. Encorajado pela saudação franca, ele perguntou: “O que significava a frase dita?”. Ela explicou que era uma citação da peça de Shakespeare, A Tempestade, e que havia uma personagem chamada Próspero nela, exatamente como o nome dele e que o pai dele deveria ter optado pelo nome por causa da obra. O homem soltou um riso mais alto e disse que o pai tinha dado esse nome para que o filho prosperasse e que, provavelmente, nunca tinha lido tal peça. Carolina explicou que trabalhava para uma editora paulistana e que a ofertaria a ele.

Na feijoada seguinte, a moça cumpriu a palavra com uma dedicatória: “Para você prosperar na alma”. O proprietário do bar nunca tinha recebido um livro autografado e ficou surpreendido com a letra de Carolina. Controlou a emoção. Prometeu ler. Para surpresa dela, quando serviu o virado de abertura da semana, já tinha devorado o presente. Debateram o sentido do discurso do ex-duque de Milão, riram juntos de Calibã e repetiram a reflexão sobre o “admirável mundo novo” de Miranda. O olhar de ambos indicava que o livro tinha estabelecido uma ponte entre o mundo da tradução e da culinária popular. Era a matéria de um sonho improvável virando parte da constituição de ambos.

A sofisticada Carolina e o clássico de Stratford tinham produzido uma mudança na rusticidade do migrante Próspero. Um mundo de discursos longos e reflexivos trazia uma novidade para nosso Próspero. A vida sempre fora prática, direta, repetitiva e de resultados. Acordava de madrugada, fazia as compras no Ceasa com a Kombi. Descarregava-a no restaurante, contava com uma dedicada cozinheira de muita confiança, servia e fazia as próprias cobranças. A sequência de pratos era fixa, não havia grandes sustos e alegrias intensas. Viver era trabalhar, fazer o que deveria ser feito, servir com um sorriso e levar palitos de dentes para algumas pessoas. Um destronado duque, um espírito do ar como Ariel, intrigas palacianas, magias em livros e mantos, os sofrimentos de Ferdinando por amor e as graças de Trínculo eram uma novidade. Os nomes eram tão sonoros que ele repetia maravilhado entre um copo e uma esponja: Estéfano, Alonso... A cada novo prato servido, a linda Carolina percebeu que ele decorava mais e mais trechos da peça do período final do Bardo. A vida ganhava outra dimensão.

As mãos se tocaram pela primeira vez no dia do bife a rolê. O primeiro filme foi uma sessão de A Tempestade, de Julie Taymor. Eles acharam ótimo a personagem central ter virado uma mulher. Beijaram-se longamente ao ouvir a frase que tinha cativado a atenção dele: somos feitos da mesma matéria dos sonhos. Casaram-se quatro meses depois, no entardecer do almoço de peixe frito. A primeira filha? Claro! Miranda, como convinha à filha de um novo tipo de duque.

O negócio prosperou ainda mais, sempre mantendo o clima intermediário entre a pretensão gastronômica da rua acima e os problemas sanitários e fiscais da parte seguinte. As paredes ganharam frases de Shakespeare escolhidas por Carolina. Era lindo ver pessoas repetindo após o almoço: “Ame a todos, confie em poucos e não faça mal a ninguém”. Com o nascimento do segundo filho, Ariel, o jovem casal decidiu ir a Stratford-upon-Avon. A família comeu fish and chips perto da igreja onde repousa o poeta. Ao pagar, nosso Próspero disse solene e orgulhoso: “We are such stuff as dreams are made on”. Boa semana para todos aqueles que se permitem ser da mesma matéria dos sonhos.

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR  

DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’,  

ENTRE OUTROS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.