O povo das coberturas

Amigo nosso, que acabei de inventar, mudou-se de um apartamento no quarto andar para um apartamento de cobertura. E nos contou que descobriu outra civilização: o povo das coberturas.

VERISSIMO, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2013 | 02h08

Começara investigando as coberturas próximas à sua, num raio que permitia o abano e a identificação fisionômica. Havia quatro à sua volta e ele estabeleceu contato com três. A quarta era de uma mulher de idade indefinível que molhava suas plantas de biquíni e desprezava os seus acenos matinais.

Todas as coberturas próximas tinham plantas, duas tinham pequenas piscinas. Uma tinha o que parecia ser uma coleção de esculturas eróticas. Ele está convencido de que, como um arqueólogo ao contrário, tropeçara numa civilização desconhecida no céu. O povo das coberturas é diferente. Ele só não sabe se é a diferença que o faz procurar as coberturas ou as coberturas que o tornam diferente.

Ele encheu o terraço da sua cobertura com plantas, o que serviu para aproximá-lo da mulher de biquíni, com quem ele agora troca saudações entusiasmadas todas as manhãs. Agitam os braços, fazem grandes gestos de agradecimento ao sol e à chuva e desenvolveram uma sólida identificação comunitária pela mímica, de pomar a pomar.

Nosso amigo acredita que é a vegetação que faz a diferença entre o povo das coberturas e o dos outros andares. O povo das coberturas distancia-se o máximo possível do chão atrás de uma paradoxal compulsão agrícola. Em vez da fascinação milenar do jardim suspenso o que ele tem, no fundo, é uma nostalgia da casa. A cobertura é o térreo invertido e portanto uma espécie de exaltação do térreo. Ao contrário do que se pensa, vai-se para uma cobertura por humildade, pela mais rasteira das virtudes. Vai-se atrás de um quintal.

Nosso amigo conta que está à beira de uma revelação. Suspeita que todas as coberturas da cidade formam uma rede semafórica, uma silenciosa conspiração de sinais trocados acima da percepção comum e do controle das autoridades. Ele já captou luzes piscando numa cobertura e respondida da outra num código desconhecido. E acha que ainda não foi incluído na rede porque talvez duvidem das suas credenciais. Podem ter concluído, observando-o através de suas lunetas (todas as coberturas têm lunetas), que a dele é uma irreversível alma de quarto andar.

Ele tem passado as noites em claro, tentando decifrar o código e saber o que eles dizem. Não tem dúvida de que existe um intercâmbio clandestino entre os tetos da cidade e não descansará enquanto não descobrir o que combinam. Ou o incluírem no mistério.

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