O povão vai entrar em órbita

O meu saudoso pai tinha razão. O leitor eletrônico da Amazon, o Kindle, abre um novo capítulo na história do livro. Garry, como ele se chamava, andou para cima e para baixo da pequena cidade costeira na Califórnia, onde morava, sempre a ler o Kindle. Isso nos preocupava. Se o velho já era distraído, imagine com o Kindle diante dos olhos. Sem falar do celular que era obrigado a levar - pela minha mãe -, para o caso de uma emergência. Temíamos um atropelamento. No fim, ele se foi "de repente", como se dizia no século 19, traído pelo coração.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2011 | 00h00

Do ramo brasileiro da família Shirts, minha mulher Luli foi a primeira a aderir ao pequeno aparelho, como tive ocasião de contar aqui mesmo, há dois meses, comparando o Kindle à canga. Talvez não seja por acaso que sua conversão tenha ocorrido em visita à Califórnia, após a morte do meu pai. Quando cheguei lá, semanas mais tarde, Luli já estava de Kindle na mão, orgulhosa. Não se vende o aparelho em lojas. É preciso pedi-lo via internet no site da Amazon. Chega em questão de horas, dias no máximo. Haja eficiência. Artista, Luli comprou ainda uma capa de couro cor de vinho para dar um toque retrô, de pós-modernidade à geringonça. A capa custou quase o preço do leitor eletrônico, que é barato, menos de R$ 200 nos Estados Unidos. Ou seja: os computadores estão próximos a virar commodities, como milho ou soja. Isso vai aproximar os povos cada vez mais. Será um passo positivo para a humanidade, não tenho dúvidas, desde que as máquinas não se voltem contra a gente.

A Amazon é uma empresa de vigor com uma visão otimista do futuro. O dono, Jeff Bezos, de uns tempos para cá deu para lançar foguetes. Seu objetivo, segundo diz, é baratear o custo das viagens especiais para que o povão possa entrar em órbita também. Soa maluco. Mas quem teria dito, mesmo dez anos atrás, que compraríamos livros digitais em tablets portáveis, do outro lado do mundo, sem nem sair de casa?

Não faz muito tempo, o segundo foguete do Bezos perdeu o rumo após atingir uma velocidade de Mach 1.2, supersônica, a 45 mil pés, uns 14 mil metros. O empresário foi obrigado a desligar o bicho, antes que atingisse alguém. Ficou decepcionado, mas a luta continua, garante.

Maria, minha filha de 20 anos de idade, também aderiu ao Kindle. Ganhou o seu da Luli, que não conteve seu entusiasmo e lhe deu de presente ainda na Califórnia. Preocupado em não ficar para trás, fiz também o download do "aplicativo" da Amazon no meu iPad, o que me permite ler livros digitais também. Já li cinco. É gostoso, mesmo na tela iluminada do tablet da Apple.

Com medo de passar por ignorante, nenhum de nós contou ao outro a própria estranheza diante de uma curiosa faceta dos livros eletrônicos. Afinal, não fazia grande diferença. Mas todos chegavam aos nossos aparelhos com trechos importantes já sublinhados. "Usado!", pensamos todos, soubemos depois. Mas não fazia muito sentido. Afinal, se vai vender um livro digital usado como novo, nada mais fácil do que eliminar, eletronicamente, a formatação e pronto. Qualquer intervenção do leitor anterior seria apagado também. O próprio conceito de "usado" não faz muito sentido no mundo dos textos digitais, diga-se.

Mas, aí, fui destacar em amarelo uma frase já sublinhada e veio a frase, assustadora, pelo menos de início: "Outros 59 leitores destacaram esse mesmo trecho".

Como assim? Quem fala? Como é que você sabe? A Amazon é informada cada vez que algum leitor em qualquer canto do mundo sublinha um trecho dos seus livros?

- Que medo - disse a Maria. Minha mulher Luli concordou.

Tentei enxergar o lado positivo.

- Isso vai aproximar a humanidade - pronunciei em uma frase panglossiana. É como se o mundo todo participasse do mesmo clube do livro, continuei, diante dos olhos descrentes e, talvez, preocupados da minha filha e minha mulher.

Afinal, se você quiser, pode desligar esse acessório. Não pode?

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