O portfólio de Lourenço

Após zanzar com cadernos de esboços por 6 anos, Mutarelli acha o caminho de volta às HQs

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2011 | 03h11

Lourenço Mutarelli foi na terça ao programa de TV Metrópolis e fez um pedido: queria que sua entrevista terminasse ao som de Philip Glass, um vídeo da performance do compositor norte-americano na instalação A Soma dos Dias, do artista brasileiro Carlito Carvalhosa, na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Muito adequado.

Mutarelli estava ali no estúdio de TV para falar de sua nova aventura em quadrinhos, Quando Meu Pai Encontrou o ET Fazia um Dia Quente (Companhia das Letras), seu retorno à sua mídia, digamos, original, após longos seis anos longe das HQs. O autor faz uma tarde de autógrafos neste sábado, 10 de dezembro, das 15 h às 20 h, no B_arco Centro Cultural (Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426, Pinheiros). Haverá uma exposição dos originais, que também estarão à venda.

A música de Philip Glass, a literatura de William Burroughs, o teatro underground de Mário Bortolotto, o cinema de Wim Wenders: nos quadrinhos de Mutarelli, nenhum elemento parece estar ali como uma linguagem emprestada, um penduricalho de decoração. Tudo se integra harmoniosamente, e de forma natural.

O último livro em quadrinhos dele tinha sido Caixa de Areia, pela Devir, em 2005. "Algumas pessoas dizem isso, e parece brincadeira, mas ou você faz quadrinhos ou você vive", ele disse uma vez. Deixou os quadrinhos e virou escritor premiado com O Cheiro do Ralo. Já lançou cinco romances, além de escrever peças de teatro e roteiros para filmes. Dele, a Companhia das Letras publicou também O Natimorto e Miguel e os Demônios. Assinou a arte do filme Nina, dirigido por Heitor Dhalia, e seu romance O Cheiro do Ralo foi adaptado para o cinema, estrelado por Selton Mello.

Encarnou seus próprios personagens nos filmes de Heitor Dhalia e Selton Mello. E mostrou-se à vontade no teatro, sob a direção do amigo e parceiro Mário Bortolotto e entre colegas como o ator Paulo de Tarso, o Picanha. O novo álbum é dedicado a um desses amigos, Marçal Aquino.

Nesse meio tempo (que durou 6 anos), Mutarelli passou a andar por aí - São Paulo, Lisboa e Nova York, onde esteve - sempre munido de cadernos moleskine cheios de esboços. Quem não o conhecesse como um mestre do gênero, poderia pensar que era um aspirante a cartunista que montava um portfólio caótico para mostrar aos amigos. Os quadrinhos viraram um método de produção - não necessariamente gráfico, como se vê nesse novo álbum.

"Foi no caminho de volta que meu pai contou a sua versão dos fatos", diz o narrador de Quando Meu Pai Encontrou o ET Fazia um Dia Quente. "Ele ainda não sabia que seu destino era o asilo. Minha irmã já tinha providenciado tudo." Sua arte trata de relacionamentos familiares marcados pelo distanciamento, pela mecanicidade das decisões (os pais vivendo a vida para servir aos filhos; e os filhos desconhecendo a verdadeira natureza dos pais, mascarada para construir um mundo idealizado para os filhos).

É possível estabelecer um curioso paralelo entre a história de Mutarelli e o filme Peixe Grande (Big Fish, 2003), de Tim Burton. Naquele filme, Tim Burton buscava exorcizar um drama de sua vida pessoal por meio de uma história com tintas de realismo fantástico. A trama de um filho que tem problemas de relacionamento com o pai - e o pai que é um personagem singular, que não se sabe se é um mentiroso compulsivo ou se as mentiras com que criou sua biografia são verdadeiras - é recorrente na literatura e no cinema, e é o caso também de Mutarelli.

Nota-se, no atual trabalho de quadrinhos de Mutarelli, reflexos de todas as atividades que desenvolveu recentemente, incluindo a tira semanal Ensaio Sobre a Bobeira, uma série gráfica cheia de nonsense e estranhamento que desenvolveu no ano passado nas páginas do Caderno 2 do Estado.

"Às vezes faço um desenho e, a partir do desenho, crio algum diálogo, algum texto, que é um processo inverso de você fazer um roteiro de quadrinhos. Você cria uma imagem e vê o que essa imagem quer dizer, complementa ela com alguma frase. A minha ideia com esses cadernos é uma experimentação total, tentar chegar a alguma coisa antes de filtrar, tanto técnica - usando material que limite um pouco o meu domínio técnico - quanto na parte criativa. E faço e viro a página e vou indo, e depois de um tempo vou olhar o que eu gerei", disse o autor no ano passado.

O pai do narrador do novo gibi de Mutarelli tem como modelo o escritor William Burroughs. Apesar de ser uma reflexão sobre a família, não há psicologismo nem grandes dramas na narrativa do autor. É dos escombros de um mundo cheio de caminhões batidos, rios secos, máquinas de costura antigas, páginas manchadas com tinta escorrida que ele extrai a poesia seca e melancólica de seus quadrinhos. Poesia precisamente definida no trecho de Kurt Vonnegut que abre o volume: "Eu não passava de um homem sentado num banquinho de três pernas no fundo de um poço".

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