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O ponto sem retorno

Depois do ocorrido, nada retornará ao lugar de partida; traduzindo: 'Agora, ou vai ou racha'

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2021 | 03h00

É uma expressão forte. Existe em quase todas as línguas. Na narrativa de um romance, é o fato que marca a personagem para sempre. Ela nunca mais será a mesma depois daquele momento. Pode ser o incêndio de Troia para Eneias, o primeiro amante para Emma Bovary ou o assassinato realizado por Raskólnikov. É o ponto sem retorno... Você, querida leitora e estimado leitor, consegue nomear, de cabeça, lendo aqui, seus dois ou três pontos-chave, ou plot-points, da sua biografia? 

O conceito virou álbum de Frank Sinatra. Em outro código, o Fantasma da Ópera anuncia que, dali por diante, ele e Christine tinham cruzado a linha do “point of no return”. A porta do Inferno, na Divina Comédia, diz que não há esperança de volta para quem a cruza.

Pessoas antigas (e cultas) utilizavam a infração grave da lei por Júlio César para o mesmo significado. Atravessar o Rio Rubicão com tropas era interditado a um comandante latino. César o fez e ainda declarou que a sorte estava lançada. Quem se lembra do brocado em latim, certamente, tem pouco colágeno e muitos pontos de virada. Traduzindo tudo em linguagem coloquial a ideia: “Agora, ou vai ou racha”. 

O que é o “ponto sem retorno”? Trata-se de um gesto que contém tanta energia que cria um efeito impossível de ser detido. É irreversível. Pode ser uma infração, uma violência grave, ceder a um abuso, submeter-se a um risco grande ou experimentar uma felicidade nova e densa. Depois do ocorrido, nada poderá retornar ao lugar de partida. Funciona como certas rolhas de vinho que saem com grande facilidade e, meia hora depois, jamais cabem de novo no mesmo gargalo do qual foram extraídas sem esforço. Como estavam lá? No espaço de uma taça, o universo se dilatou e você teve de improvisar para lacrar a garrafa.

Tudo na sua vida tem um “ponto sem retorno”. Citei César e Dante, descerei ao trivial. Eu imaginava, por exemplo, que era um número simbólico na balança: minha massa (ou peso com liberdade poética e não física) ultrapassar, em quilogramas, a barreira dos dois dígitos. Eu temia. Por quê? Achava que, se eu ganhasse dois quilos, perderia em duas semanas. Se eu ganhasse dez quilos, precisaria de uma intervenção maior. Porém, se passasse de cem, daí, a rolha nunca mais retornaria. Bem, uma vez, vi este número em uma balança de banheiro após um mês nas Ilhas Britânicas. Frio, comida, pouca atividade física... Era um fato: três dígitos! O grito foi ouvido até no Canal da Mancha. Era o nefando valor, a temida cifra e, pior, já na marca de 101 quilogramas. Não bastasse atingir o décimo de tonelada, ambicioso, o ultrapassou! Meu cérebro buscou respostas rápidas: tenho forte estrutura óssea, pratico esportes e massa magra tem densidade maior, etc., etc. Subterfúgios... Consegui reduzir de novo para os aceitáveis e atuais 92 quilos.

Era um habeas corpus. O ponto sem retorno, afinal, tinha tido retorno, mas demonstrou uma capacidade de expansão que passou a me rondar. Sim, querida tonelada, você está, fracionária, no meu horizonte... Meu peso assume o vulto fantasmagórico de um vírus de herpes: um dia, quando você menos espera e a resistência baixa...

Saindo do campo do meu diâmetro, acho que qualquer estudo precisa chegar a um ponto sem retrocesso. São patamares atingidos, pequena estabilidade e uma encruzilhada pela frente. Para sair dali, necessitamos de mais esforço. Explico-me: você começa a estudar piano e aprende, em um ou, no máximo, dois meses, uma valsinha simples. Foi uma vitória! Diferentemente dos estudantes de violino, os de piano tocarão coisas simples, mas afinadas, desde o começo. A nota está lá, pronta. Você chegou a um patamar inicial. Para ultrapassar, para aprender mais, necessita de muito mais esforço. De repente, não mais que de repente, você está tocando um minueto de Bach, do livro de Anna Magdalena. Outro salto! Novo patamar. O progresso implica mais horas, maior dedicação, mais paciência e alguma dor nas costas. Todo aprendizado (inglês, piano, ginástica olímpica) vai chegando a sucessivos e crescentes graus de dificuldade. O drama de aprender, processo permanente, é que todos os pontos têm retorno. No campo das habilidades, tudo pode retroceder. 

Há um Rubicão em cada casamento. Uma amiga minha dizia, soberana e empoderada, ao marido (quando ambos eram jovens): “Só fique comigo se realmente me amar, sou livre e independente”. Depois, repetiu a ideia na casa dos 35 anos, o ponto que Dante dizia ser o meio do caminho biográfico perdido em selva escura. Por fim, divisando a data em que poderia estacionar em vagas especiais em shoppings, anunciou, taxativa: “Se você me deixar agora, eu lhe mato”. É possível ser uma mudança de estratégia em função de demandas do mercado. Pode ser o adágio algo vulgar: “Comeu o filé, agora chupe o osso”! Na prática, todo homem e toda mulher podem ser abandonados ou amados em qualquer idade, algo que só aumenta nosso medo por alguma avaliação de oferta-procura.

Não há segurança, apenas muitos rios a atravessar e, quiçá, o momento em que, vencidas as dificuldades ou cansados de questionar, passamos a aceitar que quem foi com Colombo de partida ao Novo Mundo retorna na mesma companhia. Prudente. O amor triunfa por razões muito complexas. Importante ter esperança no amor. 

* Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras e autor de A Coragem da Esperança, entre outros 

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