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O ponto final

A morte foi tornada asséptica, distante, hospitalar, isolada e clínica, nunca social

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2018 | 03h00

Cada vez mais os vivos são comandados pelos mortos, pensava o positivista Augusto Comte. A frase do francês é uma aposta no peso do passado e na influência de pessoas pretéritas sobre o presente. Novembro é dedicado às almas na tradição católica. O feriado de Finados abre a reflexão do penúltimo mês do ano.

Existe uma história do cotidiano e das atitudes humanas que é muito rica. O fato de que você não gostou muito do tema finados é mostra de uma tanatofobia, uma aversão à morte, marca do nosso tempo.

Não velamos parentes em casa, como era hábito. Jovens raramente vão a cemitérios ou a ritos fúnebres. A morte foi tornada asséptica, distante, hospitalar, isolada e clínica, nunca social. Luís XIV agonizou com muitas testemunhas de Versalhes. Hábitos antigos como máscara mortuária, recolher as últimas palavras ou até o curioso caso do último suspiro de Thomas Edison pertencem ao passado. O corpo morto inspira medo a muitos. Muito antes da atual aversão ao cadáver, os judeus já tinham o saudável hábito de deixar o caixão fechado. A intimidade da morte e do corpo pertence ao indivíduo. Por falar em Judaísmo, tenho uma grande amiga racional cética, mente mecanicista absoluta. Ao sairmos juntos do cemitério judaico para o rito fúnebre do pai, ela me pediu que parasse em uma banca de jornais na volta. Pensei: “Como alguém pode pensar em comprar jornais após perder o pai?”. Só depois ela me explicou o real motivo: não trazer do cemitério o “anjo da morte”. A paradinha era estratégica. Questionei: “Você não era cética?”. Ela consentiu com a cabeça e disse que não queria mais tocar no assunto. Cultura é anterior à dúvida.

Somente a partir do século 19 surgiu o hoje decadente hábito de frequentar cemitérios prestando homenagens aos entes queridos. Os cemitérios judaicos são, muitas vezes, marcados pela igualdade tumular. Os islâmicos evitam colocar o nome do ocupante para evitar quaisquer cultos aos que se foram. Os cemitérios católicos são explosões de criatividade. Podem ser peças de requinte artístico extremo, como o Campo Santo de Gênova, o mais impactante cemitério que já visitei. Em lugares de enterros podemos acompanhar a ascensão e a queda da riqueza de uma região, como vemos na região da outrora próspera cultura cafeeira do vale do Rio Paraíba do Sul. No apogeu cafeeiro do 19, abundam mármores importados e estátuas de bronze para o repouso dos barões da rubiácea. Quando o café migra para São Paulo e o modo escravista entra em declínio, os mortos acompanham o despojamento crescente dos vivos. Os rituais funerários são documentos ricos, como vemos na clássica obra A Morte é uma Festa, de João José Reis. 

A morte empobreceu muito. Mesmo para falecidos abastados, hoje, não há carpideiras, banquetes fúnebres, carruagens com veludo negro ou cavalos com plumas escuras a desfilar solenes pelas ruas da cidade. A morte deixou de ser uma festa e a lotação dos cemitérios no Dia de Finados é geracional. Em vinte ou trinta anos, é coerente vaticinar que aqueles lugares pertencerão, exclusivamente, aos mortos.

Os ritos tradicionais católicos envolviam a invocação de São José, padroeiro da “boa morte”. Por quê? José morreu ladeado por Jesus e por Maria, a companhia mais sublime para a passagem. Também era comum o nome do Arcanjo Miguel que venceu o demônio. Católicos usavam o escapulário da Virgem do Carmo para garantir o fim com assistência sacramental. A morte santa e serena era também a promessa do Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque. As igrejas coloniais eram, muitas vezes, irmandades que tinham a obrigação de cuidar do enterro cristão de seus membros. A arquitetura barroca de Minas é composta, quase toda, por igrejas de irmandades da “boa morte”. A grande preocupação era “ter onde cair morto”, vestido com o hábito de um terciário franciscano ou carmelita, garantidas missas solenes para o descanso eterno. O mundo do Purgatório, a grande invenção da Baixa Idade Média segundo o historiador Le Goff, era um elo entre vivos e mortos. As orações dos vivos poderiam diminuir a pena dos defuntos. Era inútil rezar pelos habitantes do Céu ou do Inferno, ambos definitivos e imutáveis. O Purgatório era um canal aberto entre o aqui e agora e o além. Fora do Catolicismo, muitas vertentes cristãs achavam ímpia a ideia de ficar rezando pelas almas, pois o juízo de Deus era perfeito e não poderia ser influenciado pelas súplicas do fiéis. Apenas no livro dos Macabeus na Bíblia, não aceito como inspirado por grande parte da Reforma, surge a oração pelos mortos. O Judaísmo clássico nunca elaborou muito a ideia de vida após a morte. O Catolicismo chegou ao máximo da imaginação com a obra de Dante Alighieri. 

Novembro é mês de pensar na finitude: a nossa e a do ano de 2018. A pergunta que não quer calar: o que você precisa fazer antes de morrer e antes do fim do ano? O que completaria sua obra biográfica? Bom domingo para todos nós. 

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