Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

O ponto de partida de um ousado crítico

Livro analisa os anos de formação de Sábato Magaldi

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2012 | 22h00

O mau teatro fez de Sábato Magaldi um grande crítico. Ao menos, essa é a ideia que norteou Maria de Fátima da Silva Assunção a escrever Sábato Magaldi e as Heresias do Teatro. No livro, lançado recentemente pela Perspectiva, a autora analisa os anos de formação do crítico: seu primeiro emprego, no Diário Carioca, e como essa experiência seria definidora do olhar - atento, porém generoso - que ele exercitaria anos depois. “A relação com a cena carioca, que não era exatamente a de sua predileção, foi determinante”, diz a autora. “No início muito apegado ao texto, ele passa a ver outras possibilidades. A encontrar potência e beleza em outras coisas, para além do seu gosto pessoal.”

Gradativamente, o jovem crítico deixou o lugar de juiz para se colocar como um interlocutor da cena. Eis o percurso documentado pelo volume. No início dos anos 1950, ao trocar Belo Horizonte pelo Rio de Janeiro, Sábato era um bacharel de Direito recém-formado. E, como muitos de sua geração, ele foi buscar emprego num jornal. Por um golpe de sorte, rapidamente conseguiu a vaga de crítico teatral do Diário. Vinha suceder ao também mineiro Paulo Mendes Campos.

Mas Sábato não encontrou nos palcos cariocas exatamente aquilo que ambicionava ver. Ainda que fosse espectador neófito, estava atento às tendências do teatro moderno, que já vicejava na Europa. Deparou-se, entretanto, com uma oferta decepcionante, formada basicamente por espetáculos de teatro de revista e comédias populares.

A princípio, sua atitude foi rejeitar tais criações. A dramaturgia lhe surgia como valor máximo dentro de uma peça. E não se pode dizer que fossem propriamente brilhantes os textos encenados na então capital federal. “Sábato Magaldi, diante de um teatro desconectado com a modernidade, tinha duas opções”, escreve Maria de Fátima. “Ou criticava ao que assistia com seus parâmetros adquiridos através de livros, ou tentava entender os procedimentos da cena.”

Foi o que fez. No exercício cotidiano da crítica, sua escrita se abranda. Passa a ir além do drama, abarcando aspectos como a mise-en-scène e a qualidade dos atores. Ele não ficaria imune, por exemplo, ao talento de Sérgio Cardoso no papel de Hamlet. Não tardaria a incensar a ficção de Nelson Rodrigues, quando o dramaturgo estava muito longe de ser a unanimidade - inteligente, como o autor talvez jamais admitisse - que é hoje. Além de tomar posições ousadas, como comparar Cacilda Becker, que reinava absoluta como primeira estrela do teatro nacional, a Bibi Ferreira, então uma intérprete de comédias de apelo comercial. “Mesmo muito jovem, ele já tomava posições ousadas. Em muitos sentidos, foi um visionário. Os textos que escreveu sobre Nelson Rodrigues, no calor do momento, são tão atuais que poderiam ter sido escritos hoje”, comenta a estudiosa, que também é atriz e professora de teatro.

Ainda que indiretamente, sua obra ajuda a sanar um certo vazio sobre a história do teatro brasileiro na década de 1950. Com a inauguração do TBC e a chegada de diretores estrangeiros, todas as atenções voltaram-se para São Paulo. Pouco registro se tem do que se passava no Rio de Janeiro durante essa época. “Existe mesmo um buraco na historiografia carioca. O que pode ser explicado por um preconceito com o teatro popular”, arrisca Maria de Fátima.

A estada de Sábato Magaldi no Rio não durou muito. Após uma temporada de estudos na Sorbonne, em Paris, transferiu-se em 1953 para a capital paulista. Veio atuar como professor na Escola de Arte Dramática. Mas não abandonou a função de crítico. Amadureceu a verve nas páginas do Suplemento Literário do Estado e no Jornal da Tarde. E carregaria sempre consigo a lição aprendida nos anos de juventude. Não importa qual fosse a função, ele se guiou por um mesmo princípio: escrever para ser entendido, criticar para ajudar a crescer, abrir as portas do universo teatral para quem quisesse entrar.

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