Leo Martins/Estadão
Leo Martins/Estadão

O político improvável

Em documentário, FHC confessa que nunca quis ser político. “Queria ser papa”, ri

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2022 | 03h00

Houve um tempo em que diploma na parede valia mais do que uma Bíblia no bolso ou uma arma no coldre. Se hoje o entra e sai do Ministério da Educação é repleto de pastores, houve um tempo em que o reitor da UnB era Darcy Ribeiro, e o secretário municipal de Educação de São Paulo, Paulo Freire.

Intriga o título do documentário de Belisário França sobre o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, O Presidente Improvável. Qual presidente não é improvável? Jânio Quadros foi catapultado num partido sem expressão da Prefeitura à Presidência. Seu sucessor, Jango, era mais popular como vice, não pretendeu ascender e não soube conduzir o País em convulsão. 

Sarney entrou para a aliança com Tancredo no final da ditadura e herdou o cargo. Collor derrotou Ulysses, Covas, Lula, Maluf e Brizola. Lula, um operário metalúrgico, imaginava ser presidente? E o atual, defensor da tortura, autoritário, sexista, homofóbico, negacionista, que destrata a imprensa? Brasília entrou na onda conservadora de quem tem fé. A ciência no comando (sociólogo) hoje seria aberração. Não no passado. 

A universidade foi necessária para nos tirar do impasse e reerguermos a democracia. Entre os fundadores do PT, Florestan Fernandes, Antonio Candido, Sérgio Buarque de Holanda. Francisco Weffort trafegava entre petistas e tucanos. Serra e Suplicy, professores.

FHC foi precursor. Arrastado para a política por Ulysses e Tancredo, não queria ser senador. Suplente de Montoro, assumiu a cadeira quando o titular foi eleito governador. Chegou à Presidência como terceira opção. Confessa que nunca quis ser político. “Queria ser o papa”, ri. 

Numa aula recuperada de 1976, diz: “Um fato político significa algo que é não previsto pelas regras”. Diz que entramos numa nova era em que as pessoas conversam entre si, saltam as estruturas. A sociedade não se orienta por organizações, partido, sindicato, igreja, mas ideias e pessoas. 

Manuel Castells diz que o Estado ação se desintegrou porque não resolve problemas globais: “As redes sociais constituíram um poder próprio”. 

No documentário, FHC, fluente em quatro línguas, volta a ser o sociólogo que virou presidente. Fala da sua atuação com um olhar acadêmico, da América Latina e da crise de representatividade. Como sempre, se debruça sobre as contradições do Brasil, a dependência e a democracia. 

Então, entende-se que, de uma família que teve governador no Império, deputados, ministros, o estranho era ele ser sociólogo: “Gosto de pessoas, de gente, ou não seria sociólogo. Nem político”. Através dele e convidados, a História do Brasil é contada.

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