O poeta, um homem pacato e metódico

João Cabral de Melo Neto era uma unanimidade - "Foi o grande poeta da nossa língua do século 20", acredita o escritor português António Lobo Antunes. "Em seus grandes momentos, é insuperável."

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2011 | 00h00

Nascido no Recife em 1920, era de família ilustre: irmão do historiador Evaldo Cabral de Melo e primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre. Passou a infância em fazendas de cana-de-açúcar, em meio à pobreza do Nordeste, onde conviveu com seca, povo miserável e folhetos de cordel, que o inspirariam a escrever Morte e Vida Severina, sua obra mais conhecida.

Aos 17 anos, João Cabral tornou-se funcionário público. De 1937 a 1945, ocupou cargos burocráticos, primeiro no Recife, depois no Rio, onde se estabeleceu em 1943. Despontou como poeta com o lançamento, em 1942, do seu primeiro livro, A Pedra do Sono. Na época conheceu alguns dos mais importantes poetas brasileiros, como Murilo Mendes, Jorge de Lima, Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade.

Construiu uma obra poética marcada tanto por uma tendência surrealista como por assuntos populares. Comum, na verdade, era o rigor estético, que gerou poemas avessos a confessionalismos e marcados pelo uso de rimas toantes, inaugurando uma nova forma de fazer poesia no Brasil.

Aprovado para o Itamaraty em 1945, serviu na representação diplomática brasileira em Barcelona, de 1947 a 1950. Foi transferido para Londres, onde ficou dois anos. Acusado de comunista, voltou ao Brasil, ficando até 1956. Nesse período, tornou-se amigo de artistas ilustres, como o pintor Joan Miró e o poeta Joan Brossa.

Morte e Vida Severina foi encenado em 1966 pelo Teatro da Universidade Católica de São Paulo (Tuca), com músicas de Chico Buarque.

Cotado para o Nobel de literatura em 1991, morreu oito anos depois sem ganhar a distinção. No final da vida, com a cegueira acentuada, vivia recluso em seu apartamento no Rio. Despediu-se como sempre foi, um homem pacato e metódico.

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