O poeta Nicanor

Abençoado jornalismo que me permitiu conhecer alguém como o poeta Nicanor Parra

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2018 | 02h00

A notícia da morte do poeta chileno Nicanor Parra, no último dia 23, aos 103 anos de idade, me pôs imediatamente para garimpar dois livros na barafunda da minha biblioteca, ao mesmo tempo que me devolvia lembranças muito nítidas do encontro que com ele tive, em maio de 1986. Nem foi preciso voltar a velhas páginas de revista para ter outra vez diante dos olhos a figura algo impressionante de Parra, seus esvoaçantes cabelos brancos e seu rosto duro, como que esculpido a facão, e no entanto doce. Pareceu-me, na época, cheio de uma vitalidade espantosa para alguém tão velho - e eis que agora me dou conta de que ele tinha, na época, a exata idade que tenho hoje.

Tinha ouvido falar muito pouco de Nicanor Parra, poeta que três décadas depois segue sendo um quase desconhecido em meu país. Dele conhecia meia dúzia de poemas, além de divertidas faíscas verbais. “La izquierda y la derecha, unidas, jamás serán vencidas”. Outra: “Bem, e agora? Quem nos libertará de nossos libertadores?”. Ou esta: “Independentemente do sistema, os de cima se sentam nos de baixo”. Faíscas divertidas e desconcertantes, no limite da heresia, num tempo em que ditaduras militares - a nossa, recém-desmontada, a chilena ainda a pleno vapor - nos haviam condenado a tudo ver com as lentes redutoras de engajamentos ideológicos. 

A poesia, inclusive. Nas simplificações brutais de então, poeta chileno era Pablo Neruda, não Nicanor Parra, para muitos não mais que um galhofeiro, mais que isso, um provocador de quem se dizia ter um pé, senão os dois, nas fileiras da direita. Num tempo de narizes torcidos para Nelson Rodrigues, por suas posições políticas, boa parte de minha geração experimentou arrepios cívicos na leitura da poesia militante de Neruda, grandiloquente e retórica, e bem poucos tiveram peito de desgostar em voz alta de um poeta que João Cabral de Melo Neto, insuspeito de direitismo, considerava “saburrento”. Dos dois chilenos em questão, um levou o Nobel, honraria que aliás coubera, em 1945, à compatriota Gabriela Mistral. O outro, seu irreverente antípoda, pediu que lhe dessem o prêmio “por razões humanitárias”.

Por ironia, o último galardão conferido a Nicanor Parra foi, em 2011, o Prêmio Ibero-americano de Poesia Pablo Neruda.

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Mal desembarcamos em Santiago, o fotógrafo Paulo Leite e eu, e corri para comprar um livro de Nicanor Parra, Poesía Política, que entre outros me pareceu ter mais a ver com a pauta que nos levara ao Chile: uma reportagem, para a revista IstoÉ, a respeito das vicissitudes da cultura sob as botas do general Augusto Pinochet.

Por muitos dias batemos pernas pela cidade, o tempo todo assombrados pelo rigor policial da ditadura. Deu canseira conseguir credenciais que nos permitissem circular com relativa liberdade - nunca, porém, entre 2 e 5 da manhã, salvo às sextas e sábados, pois vigorava ainda o toque de recolher imposto no primeiro dia do golpe militar, em setembro de 1973. Pouco mais tarde, já de volta ao Brasil, veríamos que não bastava ter documentos para estar seguro: mesmo credenciado, um colega chileno que havíamos conhecido em Santiago, José Carrasco, foi apanhado e morto.

Na busca de ouvir os dois lados, inutilmente pedimos autorização para entrevistar a presidente da Fundação Nacional de Cultura, Lucia Pinochet Hiriart, que nos fora descrita como “a filha inteligente de Pinochet”. Mais sorte tivemos com o burocrata Enrique Campos Menéndez, assessor da junta militar para assuntos culturais, empertigada criatura que se orgulhava de promover concertos eruditos tão numerosos que para eles faltava público.

No outro lado, lembro-me de ter ouvido os escritores Ariel Dorfman, retornado havia pouco de 12 anos de exílio, José Donoso, o romancista de O Obsceno Pássaro da Noite, e o poeta Raúl Zurita, ex-engenheiro civil de 35 anos que planejava usar escavadeiras para escrever no deserto do Atacama um breve poema que só se poderia ler de um avião: “Ni pena, ni miedo”. Pôde fazê-lo, já varrida a ditadura, em 1993, num esforço bancado por artistas chilenos. Numa das regiões mais áridas do planeta, as máquinas dispuseram as quatro palavras ao longo de mais de 3 quilômetros. Açoitadas pelo vento, pouco a pouco se apagaram. A que por mais tempo resistiu foi “miedo”.

Nenhum dos entrevistados me impressionou mais do que Nicanor Parra, que fomos encontrar em sua casa de madeira no sopé da cordilheira dos Andes, nas cercanias de Santiago. Na conversa comprida que tivemos, no sótão-escritório onde ele perseguia a forma final de seus “antipoemas”, assim chamados por não haver neles um pingo de retórica, o poeta não renegou sua condição de inquebrantável anarquista, mas admitiu que o advento da ditadura contribuíra para lhe dar uma consciência política. “É algo”, sorriu ele, “que fico devendo à tirania...” Tornara-se também militante da causa ecológica, e cobrava do governo a promulgação de uma “econstituição”.

Com letra bela e graúda, Nicanor Parra autografou meu exemplar de Poesía Política, e nos ofereceu o artesanal Coplas de Navidad. Também ele um perfeccionista, Paulo Leite contorceu-se na busca da melhor imagem; insatisfeito, voltou à cordilheira na manhã seguinte, com o risco de perdermos o avião, e de lá trouxe uma foto em que o poeta tem entre os dedos uma flor colhida em seu jardim - delicada, quase subliminar homenagem à irmã Violeta Parra, cantora e compositora falecida duas décadas antes.

Abençoado jornalismo que me permitiu conhecer alguém como o poeta Nicanor. 

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