O poeta está de volta à poesia

Ele foi "o único poeta brasileiro que conseguiu transitar da Poesia oculta para a letra de samba, sem perda da substância artística". E o depoimento é do maior poeta brasileiro vivo: Carlos Drummond quebrou um mutismo de 70 anos para prestar sua homenagem a Vinicius de Moraes. Depois de uma ausência de 'seis anos a favor da música. Vinicius está preparando agora mais dois livros. Na página 4, Balada de Santa Tereza, poema inédito para o seu novo livro, O Deve e o Haver, e Delmiro Gonçalves falando das andanças do poeta em São Paulo.

Thereza Cesário Alvin, de O Estado de S. Paulo

10 Julho 2010 | 10h05

 

 

O último livro de Vinicius de Moraes data ainda de 1966: Para uma menina com uma flor. A partir daí, com exceção de um livro de poemas infantis, A arca de Noé, não fez nada de novo para ler, só para ouvir.

 

Os versos, porém, continuavam brotando e se acumulando na gaveta. Vinicius encerrou, em agosto, uma temporada de grande êxito num teatro do Rio e embarcou para a Argentina com Gesse, sua mulher, Toquinho, seu parceiro, e Marilia Medalha, sua interprete. Depois de cantar para os argentinos, tomou rumo da Europa, onde o esperavam alguns "shows" e o lançamento de três discos.

 

Não se trata, portanto, de abandonar a poesia. Mas deve haver algum motivo forte para essa volta do poeta à antiga forma.

 

"Quero deixar a casa limpa para ver o que pinta", diz Marcus Vinicius Cruz de Melo Moraes aos 59 anos de idade, brincando com Maria de dois anos e meio, sua última filha. Ao todo são cinco filhos, todos nascidos de amores que foram eternos enquanto duraram.

 

 

Roteiro Sentimental

 

São seis horas da tarde e Vinicius está com sono: não pôde acordar às duas, como gosta, porque precisou sair para tirar passaporte. Mas o poeta é paciente e carinhoso pela propria natureza. Pedindo e oferecendo um uísque, ele deixa uma das mãos livres para dividir carícias entre Maria, que sobe e desce do seu colo, e Meu, um cachorro polonês muito peludo que tem esse nome por causa de Mio, o papagaio de Sergio Endrigo.

 

Vinicius confirma o lançamento de dois livros mas diz que um deles não está pronto e só vai sair em 1973, em duas edições diferentes: uma de luxo, ilustrada por Carlos Scliar e editada por ele próprio, e outras da "Editora Sabiá". Serão cerca de 60 poemas inéditos reunidos sob o título de Roteiro Lírico e Sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde nasceu, vive em trânsito e morre de amor o poeta Vinicius de Moraes".

 

"E uma espécie de topografia sentimental do Rio. Fala dos lugares onde morei, onde namorei. Também fala do pessoal com quem tenho convivido: há, por exemplo, a Balada de Di Cavalcanti".

 

Ainda para mais tarde vai ficar - "se der vontade de acabar" - "Palavra por Palavra", um livro de prosa, também de memórias.

 

"É incrível o que as palavras mexem com a gente, fazendo ressurgir lá no fundo da memória coisas e pessoas quase esquecidas. A palavra abacate me faz rever meu avô - como se ele estivesse aqui - comendo a fruta com uma colher, gulosamente, com os bigodes salpicados de verde. Foi também por causa de uma palavra que me lembrei - e me confirmaram - de que aos dois anos de idade subi num banco para espiar, pelo buraco da fechadura, o nascimento da minha irmã".

 

Poeta e contador

 

O livro de Vinicius mais próximo da publicação é O Deve e o Haver, cerca de 70 poemas, todos inéditos, alguns retomados e outros iniciados este ano.

 

"Uma espécie de contabilidade geral da minha vida, das coisas que fiz deixei de fazer, das oportunidades que colhi e outras que perdi por qualquer motivo".

 

A própria capa do livro deverá parecer uma página de contabilidade. Ele diz que quer "deixar a casa limpa para ver o que pinta".

 

E acrescenta:

 

"Pode ser que, depois do balanço, eu acho que não tenho mais nada a dizer. Mas também pode pintar algum caminho novo. Sei lá. Pelo menos estou dizendo algumas coisas que nunca tinha dito antes, como no poema "Pai Boi" que, aliás, se escreve assim: P (B) A(O) I".

 

Mas Vinicius não admite a fronteira que, diz ele, se costuma estabelecer, entre seus poemas "para ler" e "para cantar".

 

Há temas que pedem música, outros que não pedem. Quando publicaram minha Antologia Poética - primeira edição é da "Editora A Noite", 1954 - senti que tinha acabado um ciclo da minha poesia e que eu iria me repetir. Aí comecei a tentar a canção, primeiro com Antônio Maria, depois com Tom e, até agora, com tantos parceiros ótimos que tenho tido. Houve, é claro, a intenção de atingir um público muito maior que o das livrarias. Mas há poemas longos demais para serem musicados como, por exemplo, a Balada de Santa Luzia que acabo de escrever par O Deve e o Haver. Nada me impede de fazer dois tipos de poesia ao mesmo tempo".

 

Guitarra Triste

 

Servindo a terceira dose de uísque, Vinicius coloca na vitrola um exemplar recém-recebido de um dos três discos que ele vai lançar na Itália: II poeta i la chitarra (O poeta e a Guitarra).

 

"Ficou o fino. Só eu, Toquinho, o violão e uma garrafinha de uísque. A gente fala, canta como dá vontade, manda um recado para o Tom. Um disco informal como sempre tive vontade de fazer".

 

Também vão ser lançados um disco só de músicas infantis de Vinicius e outro, de parceria com Toquinho, com as letras em versão de Sergio Bardotti.

 

A música, como as palavras, mexe com memória do poeta. Ouvindo o violão de Toquinho ele se lembra de um fato recente mas que o deixa de repente muito triste.

 

"Como é que foi acontecer aquilo com o Sergio Cardoso? Ele esteve aqui em casa, comigo sentado naquela poltrona, duas horas antes de morrer. Veio me pedir um poema inédito para ler na televisão e eu dei sob o Trópico de Câncer. Ele estava muito vermelho, mas pensei que fosse corado ou queimado de sol. Parecia até muito bem. Coitado."

 

Gesse chega da rua com Marília Medalha. Toquinho, que estava no andar de cima, desce para jantar. Volta a alegria do poeta.

 

"Um original para o "Estado"? Dou, sim Dou a Escada de Santa Luzia, meu poema preferido entre todos desta leva. É dedicado a Alfredo Volpi, que pintou uma imagem linda de Santa Luzia".

 

E OUSOU VIVER NO SIGNO DA PAIXÃO

 

"Confesso - por que negar? - que tenho inveja do Vinicius. Foi ele o único poeta brasileiro que conseguiu transitar da poesia culta para a letra de samba, sem perda da substância artistica e conservando intacto o lirismo fundamental. E é também, numa perspectiva humana, o único poeta brasileiro que ousou viver segundo o signo da paixão.

 

Vale dizer, da poesia em estado natural.

 

Quando Vinicius de Moraes souber quem fez esta "confissão" escreverá, certamente, um dos seus emocionados poemas. Seu autor, além de ser quem é - o maior poeta vivo do Brasil - costuma se dizer "alergico" às entrevistas e se negar, de modo gentil, mas energico, a dar qualquer declaração à imprensa.

 

Quebrando esse habito, mantido durante os seus 70 anos de vida, quase completos Carlos Drummond de Andrade também prestou sua homenagem ao poeta Vinicius de Moraes, lembrando uma referência a seu respeito encontrada na prosa de outro poeta maior: Manuel Bandeira.

 

"Ele tem o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a pericia dos parnasianos (sem refugar, como estes as sutilezas barrocas) e finalmente homem bem do seu tempo, a liberdade, a licença, o esplendido cinismo dos modernos".

 

Os cronistas Bubem Braga e Fernando Sabino, velhos amigos de Vinicius, têm sido, como proprietários da "Sabiá", os editores dos seus ultimos livros. Embora a editora esteja sendo vendida à "José Olympio", Vinicius deverá continuar na casa. Fernando diz que ainda não conhece os seus novos poemas mas que, como editor, fecharia contrato com ele "no escuro".

 

"Vale a pena publicar qualquer coisa que ela escreva", afirma "Tudo tem qualidade".

 

A notícia do lançamento de Vinicius é recebida com alegria por outro grande poeta brasileiro embora, ao contrario dele, não tem a justa divulgação na mais ampla faixa de leitores: a juventude. Vivendo na Europa há 15 anos como professor de literatura brasileira na Universidade de Roma, Murilo Mendes recebeu essa notícia no Rio onde esteve recentemente passando férias.

 

"Estimo muito Vinicius de Moraes. Acompanho a sua carreira desde os primeiros passos. Estive com ele algumas vezes em Roma. Repito: conservo a velha amizade. Acho que ele conta como poeta e não tenho nada contra a sua musica. Apenas - o que era lamentavel - parecia que ele tinha abandonado a poesia. Mas sabendo agora que ele vai publicar dois livros, só posso me felicitar por isso, e felicitar também o ambiente cultural brasileiro, desejando a Vinicius o maior sucesso de crítica".

 

Abertura de Diâmetro

 

Eduardo Portella é um dos críticos por cujo crivo irão passar os novos livros de Vinicius. Tendo, anteriormente, manifestado admiração pela poeta, inclusive ao prefaciar sua obra Do Verso Solitário ao Canto Coletivo, Portella aguarda esses poemas com muita curiosidade mas acha que a sua publicação não deve ser encarada como uma "volta".

 

"Vinicius é sempre o mesmo, embora tenha percorrido um caminho sinuoso. Ele vive entre a fuga e a antifuga. Um poeta em permanente estado de trânsito. Sua grandeza vem, exatamente, de ter sido o entroncamento da geração de 30 com a de 45. Depois de 1945 - cujo grande acontecimento foi João Cabral de Mello Neto - a poesia brasileira entrou num impasse em que ainda se encontra mergulhada. O que Vinicius quis fazer com a música - e até certo ponto conseguiu - foi transmitir poesia sem perda de qualidade. Sinto nele uma abertura de diâmetro do compasso, mas sem nenhuma alteração substancial - pelo contrário, com um acréscimo. Quanto ao Roteiro, está prometido na orelha de um livro dele escrito há uns 20 anos. No fundo, Vinicius acerta mal as contas - apesar de O Deve e o Haver.

 

O escritor e jornalista Otto Lara Rezende também conhece muito o poeta e as curvas da sua estrada. Prefaciou seu Livro de Sonetos, em 1957, e conserva a mesma opinião sobre Vinicius.

 

"Ninguém sabe fazer versos como ele. Sua fertilidade é impressionante, assim como a musicalidade e a expressão poética da sua obra. Acontece que, dedicando-se à música popular, ele foi sendo esquecido como poeta de alto nível que sempre foi e será. Diga-se de passagem que a própria mitologia do escritor vem desmoronando de uns tempos para cá. Por outro lado, sobrevive na área intelectual um certo preconceito contra quem faz sucesso no meio popular".

 

Aplaudindo particularmente o lançamento do Roteiro Lírico e Sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde nasceu vive em trânsito e morre de amor o poeta Vinicius de Moraes, Otto Lara diz que Vinicius "é o único poeta carioca".

 

"Manuel Bandeira viveu e morreu com as raízes enterradas no Recife. João Cabral continua ligado à cana de açúcar. Drummond nunca deixou de ser mineiro; quando fala do Rio, é manifestando aversão ao ritmo dos grandes centros urbanos. Vinicius é um poeta em paz com sua cidade, o Rio de Janeiro - por isso, sabe ser o seu cantor".

 

Receita

 

Falando da "fórmula viniciana de viver intensamente", Otto Lara Rezende traça, paralelamente, o "caminho sinuoso" do poeta apontado por Eduardo Portella:

 

"Ele começou aos 20 anos sendo o poeta que Octávio de Faria quis que ele fosse, o solene autor de O Caminho para a Distância e de Forma e Exegese, este dedicado a Jean-Arthur Rimbaud e Jacques Rivière, em Deus. Sua humanização se fez a partir do encontro com Manuel Bandeira e sob a influência de Jaime Ovalle. Depois o poeta e o cidadão se encontraram e se preocuparam com os problemas de um tempo que era de guerra. Mais tarde ainda ele decidiu recorrer à música como meio de ampliar seu campo de comunicação".

 

"Mas antes de estrear como poeta Vinicius já fazia música, observa Rubem Braga. Lygia, irmã do poeta, é quem melhor se lembra da marchinha A Loura e a Morena e da Canção da Noite, que ele compôs com os irmãos Paulo e Haroldo Tapajós, quando tinha 15 anos.

 

"Dorme, meu anjo lindo

Vai calma dormindo

Quem vela sou eu..."

 

Recordando os versos dessa canção, que já embalou as noites de duas gerações de leitores de Vinicius, Lygia diz que seu irmão é "um cancioneiro da linha de Castro Alves", um poeta musical pela própria natureza.

 

Otto Lara Rezende também fazia referência a essa busca de música, que levou Vinicius a compor antes de se lançar na literatura, quando o jornalista Wilson Figueiredo, que o ouvia, não resistiu e entrou na conversa:

 

"Pois eu tinha uma tia, dona Alice Figueiredo, que foi professora do Vinicius no Curso Primário e me disse que, desde pequeno, ele sempre escreveu muito bem."

Lygia Cruz de Moraes confirma: "Ele contrabalançava a seu horror a outras matérias, com as notas das redações de português".

"É bem difícil fixar limites dentro da realidade do Vinicius", diz o crítico Eduardo Portella.

"De manhã escureço

De dia tardo

De tarde anoiteço De noite ardo"

Poética, Vinicius de Moraes.

 

UM PERFIL

segundo a dimensão da poesia

 

Delmiro Gonçalves

 

"Quando aquela noite, na sala deserta daquela casa cheia da montanha em tôrno.

O tempo convergiu para a morte houve uma cessação estranha seguida de um debruçar do instante para o outro instante Ante o meu olhar absorto o relógio avançou e foi como se eu tivesse me identificado a ele e estivesse batendo soturnamente a Meia-Noite".

Fui com esses versos misteriosos e cheios de presságios do poema "Ariana, a Mulher", que o poeta Vinicius de Moraes entrou em minha vida, uma noite, precisamente à Meia-Noite, quando ouvia, deitado e doente, um programa de rádio.

Dadas as circunstancias, é natural que o poema me impressionou muito.

Creio que isso aconteceu lá por l940 e eu não conhecia nada do poeta, apesar de já ter ouvido seu nome aqui e ali, até que um dia nos encontramos e ficamos amigos.

O tempo passou, o poeta se encontrou e desencontrou nos seus múltiplos caminhos esteticos E vivenciais, mas sempre íntegro, uno o fiel a si mesmo: Diplomata agora aposentado, cronista, critico do cinema, cineasta renovador da musica popular brasileira, enfim aquele Vinicius eternamente enamorado, sôfrego de vida, que estes versos de "O Falso Mendigo" parecem sintetizar:

 

"Quando meu pai chegar tragam-me, logo os jornais da tarde

Se eu dormir, pelo amor de Deus me acordem

Não quero perder nada na vida".

 

Segundo Otto Lara Rezende, o poeta, aos 20 anos, começou "embriagado pela vertigem das grandes abstrações e das grandes alturas", em O Caminho para Distância. Continuou em Forma e Exesege"...ainda mais ambicioso, mais altimonante, mais pomposo. Já com Ariana, a Mulher do proprio Vinicius declara que encerra a sua fase transcendental, frequentemente mística". É somente com Novos Poemas que, ainda Segundo Otto Lara Rezende, "...faz as pazes

com a vida. Caminhando para assumir a sua naturalidade" e "...passa a falar como todo o mundo tão coloquial quanto... Manuel Bandeira"

Daí para frente Vinicius passa a ser integralmente ele mesmo, o poeta grande, amoroso e humano que se espraia nas Baladas, descobrindo, ou melhor, pondo em versos os contrastes de sua cidade, e nos sonetos em que resume toda a sua "ara amandi", principalmente no da fidelidade em que se define de modo total quando afirma que:

 

"Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal pôsto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure."

 

Portanto, o curto estagio do poeta transcendental e místico não passou, na verdade de uma crise de crescimento, algo assim como a fase das espinhas do rosto na puberdade, porquanto o garoto que ele revela em sua crônica Menino da ilha já era um_sensual, um ser entregue aos prazeres da descoberta do corpo, um panteísta se me permitem o palavra:

"Às vezes, n calor mais forte, eu pulava de noite a janela com pés de gato e ia deitar-me junto ao mar. Acomodava-me na areia como numa cama fofa e abria as pernas ao aliscos e ao luar; e em breve as frescas mãos da maré cheia vinham coçar meus pés com seus dedos de água.

 

Era indizivelmente bom.

Pela vida a fora, amante, sambista, cineasta, cronista; poeta, ele procurou a mulher em forma de poesia ou a poesia em forma de mulher?

Difícil dizer e talvez ele mesmo não saiba bem, pois confessa na sua crônica Pedro, meu filho...

 

"Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei".

 

O poeta em Vinicius não exclui, portanto o homem; pelo contrario, o homem que tão bem soube criar uma Receita de Mulher, não excluiu o pai amoroso, mesmo o pai coruja, que lançou no seu ultimo livro publicado em 1968. "O Mergulhador", em edição de luxo, ilustrado magnificamente com as ótimas fotos feitas por seu filho Pedro, de quem ele com justiça se orgulha, pois também o rapaz é um artista; ou quando conta, na crônica Orfeu Negro, este episódio ocorrido com sua filha quando ele estava no "Chateau D'Eu", na França, trabalhando na preparação do seu filme:

 

"Hoje o guia turístico do castelo veio queixar-se de que ao mostrar aos visitantes uma das mais belas carruagens em exibição no andar térreo, qual não é a sua surpresa, e a dos turistas, quando a porta da caleça se abre e surge de entre sedas e alfaias, a carinha matreira de Giorgiana. Ele me contou o caso com a compunção de um guia de castelo que presenciou um sacrilégio, e eu o ouvi com o ar severo que deve ter no caso o pai da sacrílega. Mas ao voltar-lhe as costas desatei a rir; e vi que ele também sacudia os ombros de tanto riso, enquanto descia as escadas".

 

Coruja? Talves sim; mas deliciosa e humanamente coruja.

 

Lembranças de Vinicius... Quase todas de Paulo pois no Rio foram poucas e sem muita significação para a imagem do poeta e do amigo a mim. Mas aqui era uma beleza a sua chegada ficava invariavelmente no "Excelsior Apartamentos", onde o Flavio Rangel mandava e comandava. Chegava Vinicius, e nunca vinha só. Pudera. Era o tempo dos "shows" na faixa Rio-S.Paulo. Baden Powell vinha junto, com aquele seu ar manso, aéreo, de anjo perdido na selva, com o seu apurado sentido auditivo que algumas vozes e as buzinas da praça da Republica machucavam; a ele e ao seu violão. Vinha sempre também uma namorada, loira linda, com aquela voz mansa que Vinicius parece ter inventado especialmente para as suas letras de música. Paulo Mendes Campos às vezes também comparecia. Apareciam logo o Almeida Salles, o Luiz Coelho, o Oswaldo da Palma, e tantos outros. As moças que queriam ver o poeta, ouvir o Baden e tudo mais. E formava-se o pandemonio regido pela agitação de Flavio Rangel, indo de lá para cá, martirizando o telefone, com os seus urbanos e interurbanos; aflito, suave, romantico, autoritário, enquanto o uísque não chegava. Felizmente chegava logo, senão Vinicius já tirava do estoque de sua bagagem a escocesa nunca esquecida.

 

Vinicius começava a cantalorar baixinho sua ultima composição; Baden acompanhava ao violão e ia criando também as suas músicas. A coisa continuava nesse ritmo, regada e musical, sem parar, até que alguém lembrava:

 

"Vocês tem cabina mareada para hoje à noite no noturno da Central!"

 

"Noturno? Central? Deixa pra lá!, dizia o Vinicius, e o Baden nem ouvia. A sessão continuava no outro dia, ao almoço, o encontro era no Pepe's. Assim, eles que tinham vindo passar um dia ou dois, acabavam ficando uma semana. Dessa aparente desorganização boêmia, nesse deixa ficar, nasciam coisas maravilhosas de Vinicius; Baden e outros. A alegria de criar, de beber um bom "scotch" entre amigos, a convivência e, muitas vezes, a presença da mulher amada, eram um convite para não voltar ao Rio.

 

Afirmou-se uma vez de Vinicius que teria dito ser esta a diferença entre São Paulo e o Rio: aqui a gente anda, anda, anda e nunca chega a Ipanema. Não acredito, não. Vinicius sempre andou tão pouco em São Paulo, aportando nesta cidade em tantas praias amigas boas e mansas. De amigos sempre presentes que o seu carinho iluminava com um sol.

 

Há os que lamentam ter Vinicius enveredado para a música popular, pondo quase de lado a sua produção poética.

 

Poder-se-ia chamar isso de uma abdicação ou de uma diminuição de sua capacidade criadora?

 

Penso que absolutamente não. Outros poetas antes dele já haviam feito o mesmo. Não tão sistematicamente, não como letristas, compositores e cantores ao mesmo tempo, mas muitos deles incursionaram, vez por outra na música popular. Quem não conhece essa maravilha que é Modinha, canção tão nossa e tão bela para a qual Manuel Bandeira compôs uma letra maravilhosa? E que dizer destes versos do samba-canção de Orestes Barbosa Chão de Estrelas, que muitos poetas colocam entre os mais belos versos da poesia brasileira:

 

"E a lua Furando o nosso zinco

Salpicava de estrelas nosso chão

Tu pisavas nos astros, distraída"

 

E, mais não há negar que Vinicius emprestando a sua poesia à música popular deu a ela uma grandeza e uma dignidade jamais alcançada e possibilitou o surpreendente e maravilhoso desenvolvimento da Bossa Nova, um dos mais altos e extraordinários momentos da nossa música.

 

E agora volta Vinicius com dois novos livros de poesias, assim como se dissesse:

 

- Voltei,

"Para querer-te sempre mais e mais".

 

BALADA DE SANTA LUZIA

Ao amigo Alfredo Volpi

Na cela do seu convento

Vivia Soror Luzia

Como uma monja perfeita

Em penitência e silicio.

Seu constante sentimento

Era o da Virgem Maria

Que sem um mau pensamento

O Filho de Deus parira.

Mas era tanta a beleza

Dos grandes olhos que tinha

Imenso olhos parados

Da cor da paixão sombria

Que mesmo de olhar as monjas

Soror Luzia se abstinha

Para não enrubescê-las

Quando seus olhos se tinham.

Ela própria, por modesta

A vista sempre retinha

Quando no poço do claustro

Seu rosto se refletia.

Luzia então se abraçava

Ao enorme crucifixo

Que do muro do seu quarto

Em tosco entalhe pendia

E com gemidos e queixas

A se ferir nos espinhos

Pedia ao Divino Esposo

Perdão dos olhos que tinha.

Era tão forte o momento

De suas próprias retinas

Que às vezes, em seus transportes

Ela a si mesma se tinha

Sem saber mais se se dava

A Êle, ou a ela, Luzia.

Mas Luzia não sabia

Nem sequer adivinhava

Que um belo moço existia

Que todo dia a espreitava

E que, por entre uma fenda

Que na pedra se rasgava

Ficava, ficava vendo

Luzia enquanto rezava.

E era tão grave a beleza

Dos olhos com que ela olhava

Que o amoroso cavalheiro

As mãos na pedra sangrava.

E em seu amor impotente

Pelos dois olhos que via

O cavalheiro demente

Ao muro quente se unia.

E a pedra ele possuia

Pelo que a pedra lhe dava

Da fugida mirada

Do olhar de Seror Luzia

Uma noite, em sua frente

A jovem monja depara

Com um cavalheiro embuçado

Que o alto muro galgara

E que ao vê-la, incontinenti

Se ajoelha, descobre a cara

E desvairado e fremente

Loucamente se declara.

Seu olhar era tão quente

Tão fundo lhe penetrava

Que o de Luzia, temente

Desprender-se não ousava.

E seus olhos se tiveram

Tão no corpo e tão na alma

Que fraca e delinquescente

Luzia sentiu-se grávida.

Enquanto em seu desvario

O moço lhe declarava

O seu intento sombrio

De ali mesmo apunhalar-se

Caso Luzia não desse

O que ele mais desejava:

Os olhos que via em prece

Quando de fora a espiava.

Vai Luzia e reaparece

Esvoaçante em seu hábito

Trazendo com ar modesto

Pequena salva de prata.

E com mão segura e presta

Ao moço tira o punhal

E com dois golpes funestos

Arranca os olhos das caixas:

Seus grandes olhos tão belos

Que deposita na salva

E ao jovem fidalgo entrega

Num gesto lento e hierático.

O cavalheiro recua

Ao ver no rosto da amada

Em vez de seus olhos, duas Crateras ensanguentadas.

E corre e galga a muralha

Em frenética escalada

Deixando cair do alto

Seu corpo desamparado

Sem saber que ao mesmo tempo

De paixão desfigurada

Ao seu Senhor ciumento

Santa Luzia se dava.

Rio, maio de 1972.

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