Claudio Onorati/Efe
Claudio Onorati/Efe

O poderoso Herodes

Fora de concurso, Al Pacino traz a Veneza seu Wilde Salomé, bastidor da peça teatral

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL/VENEZA

Capo Al Pacino vira Herodes e desembarca no Lido para apresentar seu novo trabalho como ator e diretor, Wilde Salomé. O filme poderia ser definido, de modo aproximado, como uma espécie de making of da peça Salomé, de Oscar Wilde, montada e dirigida pelo próprio Pacino nos Estados Unidos. O intérprete de Michael Corleone em O Poderoso Chefão veio também receber prêmio especial por sua carreira, o troféu Glória ao Cineasta, dedicado aos que deixaram marca na história do cinema.

O filme começa com um jogo de palavras Wild Salomé, a letra E aproximando-se aos poucos de Wild (Selvagem) até formar o nome Wilde, o autor da peça. Será esse o caráter da personagem Salomé, figura feminina do desejo selvagem. É também o sentido da direção de Pacino, que interpreta Herodes, o rei que cai na sedução de Salomé e, a pedido da bela, manda cortar a cabeça de João Batista. A história é conhecida. Herodes pede que sua enteada Salomé dance para ele, podendo em troca, exigir o que deseja. Ela desdenha todas as fortunas do reino, mas pede a cabeça de João Batista, o profeta, mantido prisioneiro num poço. Por quê? Porque se apaixonou por ele e foi esnobada. Como se sabe, não existe fúria maior na Terra que a de uma mulher rejeitada.

Ambicioso, o filme registra não apenas a construção da peça, mas envereda para uma pesquisa sobre a vida de Oscar Wilde, trágica por sua prisão no caso com Lord Alfred Douglas. O affair é um clássico da intolerância sexual, mas sugere-se que eram os escritos políticos de Wilde, de matiz socialista, que realmente incomodavam a sociedade inglesa. "A ideia era criar algo que pudesse revelar coisas inclusive sobre mim, como alguém que tenta afrontar o processo de fazer teatro ou cinema", diz Pacino.

O caráter assimétrico do filme, um work in progress, reflete exatamente seu processo de construção: "Levei muito tempo neste filme. É que eu não sabia para onde estava andando. Trabalhei muito, depois parei cinco meses e tive uma iluminação de como deveria fazer. Cinema é como a pintura, você precisa se distanciar para ver o quadro em seu todo", diz o ator, cabeludo aos 70 anos, com sua voz rouca de Padrino.

Terraferma, de Emanuele Crialese, provocou comoção ao abordar um dos temas mais quentes da Itália em crise - a política de imigração. Traz entre seus intérpretes alguém que de fato viveu a experiência trágica de lançar-se ao mar, naufragar e não ser ajudada durante 21 dias de agonia. Anos atrás, tentando alcançar a Itália, um barco de imigrantes ficou à deriva e dezenas de pessoas morreram na costa de Lampedusa. Apenas quatro se salvaram, sendo a africana Timnit T. a única mulher. Crialese ficou chocado com o episódio, que lhe inspirou o filme muitíssimo aplaudido na sessão de imprensa, realizada na sala Darsena (1.300 lugares).

Crialese narra pelo ponto de vista de um jovem, Nino (Giuseppe Fiorello), que sai à pesca com o avô. Encontrando náufragos em perigo, o avô os recolhe e leva à terra, pagando preço alto pelo ato de caridade. Nada simplista, Terraferma expõe os sentimentos contraditórios dos italianos sobre a imigração. A temperatura esquentou quando uma senhora tentou defender a legislação contra os imigrantes clandestinos. Foi contestada por Crialese que lembrou o passado de emigração da própria Itália como uma realidade histórica recalcada. "Não somos racistas", disse às lágrimas o jovem intérprete de Nino, aplaudido de pé.

Brasil. Bem recebido, o primeiro brasileiro em Veneza, Histórias Que Só Existem quando Lembradas, de Julia Murat. Passou numa das salas menores, a Pasinetti, e teve boa lotação. O filme, rodado no interior do Estado do Rio, mostra uma comunidade de idosos isolada do mundo. Todos fazem todo o dia a mesma coisa.

O lugar parece não ter passado, e muito menos futuro. Até que chega uma jovem fotógrafa, Rita (Lisa Fávero), e altera o cotidiano morto, em especial os de Madalena (Sônia Guedes) e Antônio (Luiz Serra). Plasticamente bonito, o filme adota o registro da luz natural, e cria uma atmosfera levemente irreal e fantástica.

Venezianas

Polêmica

Marco Bellocchio, que recebe um Leão de Ouro pela carreira, sempre se destacou por filmes polêmicos. Seu próximo projeto não destoa do conjunto. O tema é a luta de uma família para desligar os aparelhos de uma moça que vivia há 14 anos em estado vegetativo após acidente. O episódio comoveu a Itália e questões éticas voltam agora à tona. Bellocchio já mexeu em temas espinhosos como estupro e luta armada.

Rivalidade

O veterano crítico da Positif, Michel Ciment, comentou que era um absurdo selecionar para a mostra principal Un Été Brûlant, de Philippe Garrel, e relegar o inventivo Cut, de Amir Naderi, à paralela Horizontes. "Garrel tem a grife Cahiers du Cinéma, e os Cahiers são como religião para os festivais", disse. As duas revistas, Positif e Cahiers du Cinéma, rivalizam na cena cinematográfica francesa desde os anos 1950.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.