O poder no centro das relações

Em Uma Aventura Secreta do Marquês de Bradomín, Teresa Veiga, enigmática autora portuguesa, explora o impessoal

Inês Pedrosa, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2011 | 00h00

Os prêmios literários que Teresa Veiga tem recebido em Portugal premiam também os seus leitores com uma oportunidade rara: a de poderem ver e ouvir esta, mais do que discreta, quase secreta escritora. Tudo o que dela se sabe é que nasceu a 24 de Março de 1945, formou-se em Direito na Universidade de Lisboa em 1968 e exerceu, entre 1975 e 1983, o cargo de conservadora do registro civil nos arredores da capital. Cabe à imaginação do leitor decidir se Teresa Veiga é um arquitetado heterônimo a incluir no jogo da própria obra ou um simples pseudônimo. Seja como for, a recusa de entrar na passarela brutal e confusa em que o mundo dos livros - não confundir com a literatura - se tornou, neste tempo dominado pelos rituais e deuses da moda, sinaliza a lucidez e a segurança desta voz.

Uma Aventura Secreta do Marquês de Bradomín, agora publicado pela Companhia das Letras, foi contemplado em 2008 com o Grande Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco - que lhe fora já atribuído também em 1992, com o livro História da Bela Fria. Ao receber pela segunda vez o prêmio, Teresa Veiga justificou a sua resistência à mediatização: "Não é por uma questão de falsa modéstia, mas porque sempre achei que o escritor escreve e, depois, os outros, as pessoas, terão um olhar crítico, mais claro e mais isento sobre o livro". Disse também que considera Camilo Castelo Branco "um mestre, ao lado do qual todos os outros são as sombras que nunca conseguirão suplantar o mestre" e que, tal como Camilo, gosta de uma narrativa "rápida, densa e breve". Oxalá a publicação no Brasil desta póstuma protegida do grande Camilo possa espicaçar no mundo editorial brasileiro o desejo de publicar a obra do genial autor de Amor de Perdição.

O conto que dá título a este livro é fundamental para quem pretenda entender a singularidade do universo da autora: parte da história de uma família com pergaminhos mas economicamente decadente, assombrada por fantasmas de bastardia e dominada por uma mãe má. Estes elementos são constantes em toda a obra ficcional de Teresa Veiga - como constante é a aparição de uma figura masculina que excita a rivalidade surda entre as mulheres (mães e filhas, ou madrastas e enteadas) e desencadeia tragédias. Agustina Bessa-Luís escreveu por diversas vezes e de múltiplas maneiras que se queremos fazer alguma coisa temos de fugir das mães sem olhar para trás; e, nesse romance ferozmente lúcido que é Eugênia e Silvina, declara: "A família é uma forma de sequestro; e o sequestro desenvolve sonhos eróticos e de glória, devoções extáticas e rasgos patrióticos em geral susceptíveis de discordar do sólido julgamento das pessoas". As reflexões de Agustina sobre a família poderiam servir de epígrafe aos livros de Teresa Veiga, e a força telúrica das suas personagens femininas recorda, sem dúvida, o universo agustiniano. Aqui e além, um sopro aforístico evoca o tom sentencioso da criadora de Um Cão Que Sonha. Perto do desenlace da aventura secreta, surge-nos, por exemplo, esta frase: "Mas só os pobres é que se enforcam; os senhores soluçam, bebem e rezam e não perdem nunca a sua magnificência".

No entanto, embora a paisagem geográfica e humana e o timbre clássico da escrita de Teresa Veiga possa, à primeira vista, evocar Camilo e Agustina (dois gênios do mesmo sangue), distingue-a o ângulo deliberadamente frio, apertado e comportamental na abordagem das relações humanas: em Teresa Veiga, não encontraremos descrições de estados de alma nem atmosferas intensamente erotizadas. A escritora utiliza a narrativa na primeira pessoa substituindo o seu habitual valor confessional por uma estratégia de defesa, ironia ou ocultação. O primeiro beijo entre o marquês de Bradomín e a sua amante é descrito do seguinte modo: "as nossas bocas fundiram-se num beijo e permaneceram coladas durante muito tempo, como duas plantas carnívoras unidas pela sua substância pegajosa". O tema central de Teresa Veiga é o poder, o pequeno e mortal poder que contamina todas as ligações entre as pessoas - mesmo ou sobretudo aquelas que parecem viver à margem dele. Quer se trate de um narrador feminino (como é o caso, neste conto) ou masculino (como será o caso no conto seguinte, O Maldito, Marianina, e o Feitiço da Rocha da Pena), a marca de uma impessoalidade carregada de enigmas surge sempre como uma espécie de mecanismo acelerador e amplificador do enredo. Desta forma de contar, velada e incisiva, nasce a especificidade do estilo de Teresa Veiga - e é esse dom de concisão e rigor que a torna particularmente poderosa na arte do conto ou da novela. Além de uma sutil e permanente capacidade de diálogo - nada ostentatório, porque nada é ostensivo nesta escrita - com os clássicos da literatura e da pintura, que nos recorda a intemporalidade do belo e do terrível, e o modo como vivem, indissociáveis, dentro de nós.

INÊS PEDROSA É ESCRITORA, AUTORA DE OS ÍNTIMOS E FAZES-ME FALTA (ALFAGUARA BRASIL), ENTRE OUTROS LIVROS, E DIRETORA DA CASA DE FERNANDO PESSOA

UMA AVENTURA SECRETA DO MARQUÊS DE BRADOMÍN

Autora: Teresa Veiga

Editora: Companhia das Letras

(128 págs., R$ 33)

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