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O poder em preto e branco

Os racistas e os militantes contra o racismo alegam que a violência seria legítima defesa

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

03 Fevereiro 2019 | 02h00

Spike Lee sempre faz pensar. Saio dos filmes dele com emoção, entusiasmo, discordâncias, raiva; nunca indiferente. O mais recente (BlacKkKlansman, 2018; Infiltrado na Klan em português) narra uma história baseada em fatos ocorridos no Colorado. Na década de 1970, o policial negro Ron Stallworth montou uma operação para se infiltrar na organização racista norte-americana, a Ku Klux Klan. O ocorrido já tinha ido às telas com o filme The Black Klansman (também conhecido como I Cross the Color Line), dirigido por Ted Mikles. É um grande exercício analítico comparar o que um diretor branco e um negro fazem com a mesma fonte. 

O filme de Spike Lee trata da questão do racismo contra negros e judeus. Em meio à liberdade criativa da ficção, há dados históricos. O mundo concreto aparece em cartazes sobre a surpreendente reeleição de Nixon ou cenas chocantes dos incidentes raciais em Charlottesville (2017). Sempre é importante dizer que, para o historiador profissional, os fatos concretos são recortados pelo diretor para expressar um ponto de vista e uma posição política. Assim, trata-se do real, mas do real de Spike Lee. A costura da narrativa é um gesto subjetivo e, no fundo, sem nenhum tom pejorativo, um produto retórico. 

Como eu posso falar em retórica diante de uma questão tão grave? Vou exemplificar. Há uma cena em que os membros racistas da Klan assistem ao filme que revitalizou a organização: O Nascimento de uma Nação (1915). O grupo se comporta como em um cinema e, diante do claro tom racista do filme de D. W. Griffith, torcem, comem pipoca e, ao final, em catarse coletiva, gritam “White Power, White Power”! Quase ao mesmo tempo, em outro ambiente, surge uma reunião de militantes negros. Eles ouvem um comovente depoimento sobre os linchamentos de negros. Um senhor relembra um fato particularmente macabro, o que vira durante a Grande Guerra (ao mesmo tempo em que o filme O Nascimento de uma Nação estava sendo feito). Ao final, o grupo militante fica gritando “Black Power, Black Power”! Aqui entramos no campo da retórica, fascinante e perigosa. 

Estamos diante de sobreposições ficcionais. Um policial negro criou um plano real para se infiltrar na Klan. Isso ocorreu. Anos depois, esse policial produz uma narrativa que vira um filme e, na geração seguinte, outro filme. A memória vai se transformando, como sempre. Spike Lee, diretor do segundo filme, recria personagens militantes contra o racismo (como Patrice Dumas e o próprio Stallworth) e claros vilões favoráveis à supremacia branca (como o mestre da Klan, David Duke e o asqueroso Felix Kendrickson). Há racistas que buscam pretensos dados culturais/biológicos para embasar seu ódio, há racistas que apenas transferem sua frustração pessoal para o combate a negros e judeus e há racistas com uma debilidade cognitiva mais clara do que a média. A primeira sensação que tive na sobreposição de black e white power é uma equiparação artificial. Os brancos deliram com o poder negro ou com riscos ao que imaginam ser a “supremacia ariana”. Deliram porque ninguém é agredido por ter olhos azuis ou perde um emprego pela baixa concentração de melanina. A sociedade dos EUA, como a brasileira, abre mais portas a brancos do que a negros e não existem discursos culturais ou regras não enunciadas que excluam brancos do mercado de trabalho ou da visibilidade na propaganda. No caso da reunião dos militantes negros, eles estão sugerindo black power como uma resistência aos gestos violentos de alguns policiais (que aparecem no filme), contra assassinatos e exclusões reais. O risco branco, no caso, é um delírio e o risco negro é real. Qual teria sido o objetivo de Spike Lee ao aproximá-los? Outra aproximação no filme é sobre a violência. Oradores negros falam em guerra próxima, necessidade de resistência, etc. Militantes da Klan pegam em armas de verdade e planejam um atentado que sai pela culatra. 

Aqui, entramos em um debate complexo. O que Spike Lee sugere ou provoca é algo grande para pensar. Quentin Tarantino, por exemplo, mostra gestos de grande violência em Bastardos Inglórios (2009), mas é uma violência contra nazistas, arquétipos do mal e da violência, logo, violência que nos entusiasma. Vida humana sempre importa ou só importa quando existe empatia pela vítima? 

Os policiais do filme de Spike Lee são desqualificados com gírias pesadas pelos militantes negros. Os negros são tratados apenas por insultos pelo outro lado. Quem deve viver e quem deve morrer? Matar um racista é justificável? Matar um terrorista é legítima defesa? Qual vida importa? O filme ajuda a pensar o poder em preto e branco. Os racistas e os militantes contra o racismo alegam que a violência seria legítima defesa. Poderia ser o combate moralmente justificável (a luta contra o racismo) base para violência? Spike Lee faz pensar em muitas questões sobre como funciona a violência de um mundo dominado por brancos. Talvez ele também insinue a Revolução dos Bichos (Animal Farm, G. Orwell): o eterno risco de usar a justiça apenas para mudar o nome do tirano de plantão. Já temos a experiência histórica e forte do racismo e seu desfile de violências. Como escapar da armadilha dos seres orwellianos? A pergunta não tem resposta clara: qual pacifismo é bom e qual faz o jogo do carrasco? Bom domingo para todos nós. 

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