Zineb Benchekchou/Divulgação
Zineb Benchekchou/Divulgação

O poder das vontades de cada um

12 Homens e Uma Sentença tem uma direção inteligente e elenco impecável

Crítica: Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2010 | 00h00

O que há de mais ostensivo em 12 Homens e Uma Sentença é exatamente a renúncia deliberada ao espetacular. Habituamo-nos a prestar atenção na linguagem do teatro, aprendemos que tudo importa, desde o que acontece no palco até as circunstâncias de exibição, tais como o espaço e o público que nos rodeia. Todas as convenções de atuação vigentes no teatro de hoje não permitem esquecer o caráter ficcional da representação. Para a arte contemporânea, um dos campos mais polêmicos é ainda a definição de autenticidade e esse dilema acaba associando o ilusionismo à mentira. Desde que os meios de comunicação dominaram a função mimética e se tornaram capazes de iludir o público a um grau inimaginável, artistas das mais diferentes linguagens ensaiam continuamente novas modalidades de reproduzir a experiência sem copiar as aparências sensíveis da realidade. Pois é na contracorrente dessa proposta já secular que avança a encenação da peça de Reginald Rose dirigida por Eduardo Tolentino de Araújo. Entre outras coisas, é uma encenação que considera um atributo do teatro a capacidade de desviar a atenção do espectador dos meios de produção para o significado da narrativa.

Esquecer por certo tempo o entorno é, neste caso, um imperativo para que se complete a perspectiva do drama realista. Inteiramente dialógico o debate entre o corpo de jurados reunido para absolver ou condenar um suposto jovem assassino prescinde de ações exteriores à cena e opera, quando é necessário situar fatos, com épocas e lugares rememorados pelas personagens em cena. Desse modo, o intervalo temporal ocupado pela deliberação do júri coincide com a duração do espetáculo, ou seja, com o tempo concedido ao público para compreender os fatos e refletir sobres eles. E esta simultaneidade entre a cena e a experiência vital do espectador, sendo uma condição indispensável para a existência do teatro, é a dose de teatralidade que basta para a direção. Testemunhas de um combate de ideias e árbitros na arena invisível de foro íntimo, os observadores não têm o direito de se distrair com cenários exteriores, paralelos e analogias.

Veredicto. Trata-se, portanto, de um tipo de peça que sobrevive da concentração em torno de um tema porque solicita, em última análise, a empatia com um determinado veredicto. Com uma batuta de maestro regendo o ritmo e a intensidade de cada intérprete, Eduardo Tolentino de Araújo distingue os fatos dos argumentos, delineia paixões obscuras ocultas sob enunciados razoáveis e, inversamente, raciocínios claros emergindo da fala coloquial das personagens menos instruídas. Nada é dado de bandeja pelas atitudes exteriores e, no entanto, cada embate de palavras, ao solapar a convicção de um dos jurados, influi ligeiramente sobre a dinâmica do grupo. Sinais de que um argumento contra a certeza da culpabilidade do réu atingiu o alvo se evidenciam por uma expressão facial ligeiramente mais alerta, por respostas vocais mais enérgicas ou, no caso de um jurado taciturno, por uma diminuição da distância entre ele e o interlocutor que instiga a dúvida. Há uma desordem que não chega a ser ruidosa na integridade original do grupo e a isso se segue uma reordenação tensa das posições originais.

De acordo com as convenções estabelecidas pela peça, 12 homens estão constrangidos por uma associação impessoal. Não pertencem aos mesmos círculos profissionais e sociais e estão, como personagens, impedidos de dar rédea larga aos respectivos temperamentos. Indo um pouco além da observação estrita dessa impessoalidade, a direção do espetáculo suaviza a figura do agente provocador para torná-lo a um só tempo lúcido e sedutor. Embora seja em parte estratégia e retórica, a civilidade do Jurado 8 é acentuada para proporcionar um contraste evidente com a emotividade mais feroz do seu antagonista. Única concessão do dramaturgo ao melodrama, o sofrimento pessoal do Jurado 3 é uma nota final dissonante no estilo da narrativa e o espetáculo soluciona bem essa fratura envolvendo a personagem em uma mansidão piedosa.

Bem esmiuçada, a história de Reginald Rose é uma celebração da fé puríssima -- que talvez só os norte-americanos professem e pratiquem - no poder da vontade individual. Considerando, porventura, o fato de não sermos tão virtuosos, o espetáculo de Eduardo Tolentino de Araújo é menos cândido do que a peça sugere. O elenco impecável na caracterização gestual e vocal das personagens funciona em bloco e significa uma totalidade. A precisão do espaço e dos figurinos de Lola Tolentino são fundamentais para a coesão visual das identidades díspares. O mesmo acomodado conformismo da cena inicial vai-se reconstituindo à medida que os jurados ponderam uma vez mais os procedimentos do tribunal. Ao final, parece-nos, todos são redimidos como coletividade porque se transformaram como grupo.

12 Homens e uma Sentença - CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, Centro, 3113-3651. Quinta a sábado, 19h30; domingo, 18h. R$ 15. Até 19 de dezembro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.