Imagem Luis Fernando Verissimo
Colunista
Luis Fernando Verissimo
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O poder cínico

Resolvi dar uma folga aos meus 17 leitores. Prometo não citar o nome do Bolsonaro nem que ele nomeie o Queiroz como conselheiro da embaixada brasileira em Washington

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2019 | 02h00

Com um abano para o filósofo alemão Immanuel Kant, esta crônica poderia ter o mesmo título da sua obra mais importante, Crítica da Razão Pura, com uma única mudança: em vez de “razão pura”, “puro cinismo”. Immanuel Kant escreveu sobre os limites do conhecimento humano, sobre física versus metafísica, sobre o saber intuitivo e o saber empírico. Se eu quisesse aproveitar seu título não precisaria ir a esferas tão altas para minha crítica nada filosófica, bastaria ler os jornais do dia.

Quando o presidente Bolsonaro substitui quatro membros da Comissão da Verdade por quatro membros escolhidos por, notoriamente, não terem o menor interesse em esclarecer os crimes da ditadura, e justifica a mudança porque o governo agora é de direita e a direita, deduz-se, não quer saber de verdade, chegamos a um grau de cinismo destilado, puro cinismo, que deixa para trás todas as suas manifestações anteriores.

A direita tem todo o direito, conquistado nas urnas, de querer mudar a História, esquecer as vítimas da ditadura e os desaparecidos e não falar mais nisso. Só o que se pede ao presidente e aos generais que, cargo a cargo, vão ocupando o poder é que na sua tentativa de apagar o passado de uma vez por todas tenham um pouco de pudor, gente. Ainda tem mães procurando filhos que desapareceram.

Mas eu tinha decidido não praticar mais o que se poderia chamar de jornalismo reativo, que consiste em apenas esperar a última do Bolsonaro e reagir. Como não passa semana sem que ele apronte uma, nunca haveria o risco de faltar assunto, só o risco de encher o saco do leitor. Que teria razão em reclamar: não basta ter o Bolsonaro no Planalto todos os dias, ainda temos que aguentá-lo dominando o noticiário, os comentários, as opiniões, os prós e os contras dos jornais e das revistas, todos os dias e todas as semanas?

Resolvi dar uma folga aos meus 17 leitores. Prometo não citar o nome do Bolsonaro nem que ele nomeie o Queiroz como conselheiro da embaixada brasileira em Washington. Só não sei por quanto tempo vou conseguir me controlar. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.