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O pó e a física

Estamos nos habituando a esta bela filial da Sagrada Família de Barcelona no nosso prédio

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 02h00

Quando recebi a notícia de que iriam ser iniciadas obras gigantescas exatamente em cima do meu apartamento, suspirei e imaginei que os problemas que me assombrariam pelos meses seguintes seriam, basicamente, muito barulho e muita sujeita. Minha criatividade e minha malícia não conseguiram ir muito além disso.

Não imaginei as rachaduras no meu teto, a sobrecarga da rede elétrica, nem os andaimes na minha janela. Nem me passou pela cabeça que eu poderia estar de pijama na sala de casa e dar de cara com um pedreiro na minha varanda, nem que caísse um monte de cimento em cima das minhas plantinhas, nem que eu teria que desviar de 49 objetos – escadas, tábuas, carrinhos de mão, capacetes, maços de cigarro – para tentar chegar à porta da rua. 

Mas tudo bem. Desde agosto, estamos nos habituando a esta belíssima filial da Sagrada Família de Barcelona no nosso prédio e, por vezes, já nem notamos os decibéis da furadeira logo cedo. Tudo na vida é uma questão de hábito, como diria o sábio.

Na manhã dessa quarta-feira me arrumei para trabalhar, toda de preto, escova no cabelo, corretivos nas olheiras. Quando abri a porta de casa, era um misto de sonho e pesadelo. Tudo estava coberto por um pó branco, a entrada, a escada, nosso tapetinho de limpar os sapatos antes de entrar, parecia que havia nevado como em Paris.

Olhei para a paisagem, suspirei, imaginei quando é que limpariam aquilo e resolvi colocar nosso tapete de pé, apoiado na parede para que não ficasse ainda mais sujo do que já estava. Mas quando fiz isso tive a brilhante ideia de bater o tapete no chão para ver se já caía um pouco da poeira.

Fui absolutamente incapaz de imaginar que, com a minha pancada, o pó subiria em vez de descer. Mas foi o que aconteceu e eu não consigo narrar muito bem o ocorrido. Todo aquele pó branco subiu automaticamente para a minha cara, meu cabelo, minha blusa preta, exatamente como naquelas cenas de circo em que um palhaço assopra um punhado de talco bem na cara do outro.

Paralisada com aquela situação, ouvi uma gargalhada atrás de mim. Virei para o lado – um misto de Abominável Homem das Neves com Gasparzinho – e dei de cara com o pedreiro angolano do sorriso largo que assistiu à cena e me disse, sem graça porém rindo, “a senhora desculpe lá, mas isso não foi muito inteligente”.

Tive um instante de ausência de reação, mas logo percebi que o melhor era mesmo rir junto com ele e concordar. Eu ainda disse “você nunca faria essa besteira né?” e ele disse que claro que não, porque “é pó, e pó sempre sobe quando bate, moça”. Ele olhava para mim com um misto de piedade e simpatia.

Percebi naquela manhã o quão ridículo é o nosso conceito de inteligência e o quão inúteis são, por vezes, os nossos magníficos diplomas e títulos. Os anos em que estudei física com afinco na escola privada paulistana em nada adiantaram para evitar aquele incidente, que parecia tão ridículo quanto improvável aos olhos do moço da obra. 

Achei mesmo engraçada a minha ignorância. E o pedreiro achou ainda mais. Ainda bem que ele riu e me fez rir, e espero que ele tenha chegado em casa à noite e narrado o espetáculo para a mulher e os filhos e que todos tenham gargalhado juntos. Eu fico feliz imaginando isso.

E assim foi. Enfiei minha graduação, meu mestrado e meu quase doutorado entre as pernas, bati meu cachecol contra o rosto, chacoalhei meu cabelo, passei a mão na roupa, me despedi do pedreiro e saí, ainda com aqueles ares de dama da corte de Luís XVI, toda trabalhada no pó de arroz e na falta de experiência.

Da escada, ele ainda gritou “espero que não haja tanto pó na próxima semana, mas agora já sabes que assim não corre bem”. Respondi, rindo, que ele tinha razão, e que esse erro já não cometo mais. “Até logo, bom trabalho.” E segue o jogo.

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