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O pior dos mundos

"Como você pede a um homem para ser o último a morrer no Vietnã?

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2014 | 02h05

Como pede a um homem para ser o último a morrer por um erro?"

(Tenente John Kerry, depondo no Senado sobre atrocidades cometidas no Vietnã, em 1971)

Em 2002, o já senador John Kerry votou a favor da invasão do Iraque. Não tenho contato, por parentesco ou amizade, com nenhuma das famílias dos 4.500 americanos mortos pelo erro que teve o apoio do condecorado tenente Kerry, hoje Secretário de Estado do governo Obama. E não é coincidência: o serviço militar obrigatório foi abolido em 1973, graças ao fiasco do Vietnã.

Com uma força voluntária, o fardo de defender o país caiu desproporcionalmente sobre minorias e a classe média baixa. As forças armadas sabem disso e recrutam entre os vulneráveis. Em 2008, depois de um ano de intensificação de combate à insurgência no Iraque e com a continuação da ocupação no Afeganistão, não havia voluntários para preencher as quotas necessárias para a máquina de guerra. O comando baixou as restrições para alistamento como antecedentes criminais, problemas de saúde e educação insuficiente, a ponto de 20% de novos recrutas não cumprirem os requisitos habituais.

O sargento Bowe Bergdahl, prisioneiro de guerra trocado por talibãs de Guantánamo em maio, faz parte desta leva. Já havia sido desligado da Guarda Costeira por razões psicológicas, antes de se oferecer para servir no Afeganistão. Mulheres negras são avidamente cortejadas - elas se alistam para servir numa proporção de 31% -, o dobro de sua representação demográfica na população. O erro que Bush calculou valer a vida não só de seus soldados como de 134 mil iraquianos não afeta os americanos igualmente. É por isso que não vemos um jovem privilegiado e educado na Europa como John Kerry articulando sua indignação diante de um Senado que, convenhamos, prefere não voltar o relógio atrás e distribuir culpas.

Em uma semana, o Iraque se tornou um Estado em colapso. Militantes sunitas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, abastecidos por fundos milionários, basicamente tornaram inútil a fronteira da Síria com o Iraque.

Barack Obama era um desconhecido senador do Illinois quando votou contra, em suas palavras, "a guerra burra". Ele se elegeu, ou melhor, derrotou Hillary Clinton, mais por causa do voto contra a invasão do que pela cor da pele. Na sexta, uma primeira preocupação de Obama foi mandar p recado que os americanos querem ouvir: nada de tropas. O "no-drama-Obama" foi pensar nas alternativas para lidar com mais uma crise internacional. No melhor dos cenários, elas vão de ruins a péssimas.

Em maio, Obama fez um discurso na academia militar de West Point para delinear em que cenário é justificada uma intervenção americana. País abriga terroristas antiamericanos? Drones neles. País como a Síria explode em guerra civil que ameaça a região e mata 140 mil? Problema deles. Quem, fora o cabal de interesses especiais que cercava Bush, pode discordar de críticas a aventuras irresponsáveis como o Iraque, a um custo US$ 2 trilhões, se contamos os veteranos feridos e em cuidado psiquiátrico?

Os americanos concordam com Obama. Só 43% aprovam seu desempenho geral mas a maioria prefere ver a pegada de carbono militar e intervencionista dos EUA reduzida. Mas, ao mesmo tempo, sabe que não pode reclamar o mesmo papel protagonista tão associado à psique americana nos últimos 60 anos. O isolacionismo é apenas filho da fadiga de guerra e da grande recessão de 2008? Não acredito. Graças ao cinismo e à falta de liderança iluminada em Washington, discutir política externa com o público, neste período após a ameaça da Guerra Fria, é como perguntar a uma criança de 3 anos, que não tem noção do tempo, onde ela quer morar em cinco anos. Ela quer segurança, conforto e espera contar com alguém para manter o status quo.

As tropas iraquianas que nós contribuintes pagamos US$ 25 bilhões para treinar, desabotoaram seus uniformes, jogaram as armas fora e fugiram. Comandantes do exército iraquiano fizeram acordos com os militantes sunitas e capitularam para impedir que suas cabeças fossem cortadas. Estamos falando de fanáticos considerados sanguinários e radicais demais pela Al-Qaeda.

Se a CIA não consegue nem prever o passeio das forças sunitas sobre Mosul, com 2 milhões de habitantes, a segunda maior do Iraque, uma invasão que os moradores já esperavam um mês antes, como confiar na inteligência disponível para ataques aéreos cirúrgicos sem provocar uma carnificina de civis?

Num momento de sarcasmo machista, Obama se virou para Hillary Clinton durante um debate da campanha de 2008 e disse: "You're likable enough" ("Você é simpática o bastante"). Obama se lambuzava no próprio carisma, sabia que os americanos estavam se apaixonando por ele.

A semana que passou foi rica em trama shakespeariana para o Hamlet do Salão Oval. Hillary pula de cidade em cidade, promovendo seu livro de memórias em que reconhece, com sinceridade questionável, o erro de ter votado a favor da invasão. Ao retirar a tropas do Iraque em 2011, Obama mais uma vez decolou no seu ultraleve retórico. Disse que os EUA estavam legando aos iraquianos um país "estável, seguro e autossuficiente".

Nada mais distante da realidade que explode na telas dos filhos da desigualdade que se ofereceram para morrer e ser amputados por um erro.

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