O piano e seus mestres

Francês lança livro no qual recupera trajetória e gravações de grandes pianistas, do início do século 20 a Nelson Freire

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2013 | 02h10

O jornalista e crítico musical francês Alain Lompech, de 58 anos, assume publicamente três grandes paixões: a jardinagem, o Brasil e o piano. Há mais duas, que revela em dois capítulos de seu livro Les Grands Pianistes du XXè Siècle: Guiomar Novaes e Nelson Freire (a este, seu grande amigo, dedica também o livro).

Avis rara no panorama europeu, Lompech conhece muito bem a realidade cultural e musical brasileira. Envolveu-se até na crise da Orquestra Sinfônica Brasileira em 2009, chegando a escrever um artigo de "insider" que poderia ser assinado por qualquer um de nós, jornalistas musicais que vivemos o dia a dia nativo. Por várias décadas editor e crítico do jornal Le Monde e hoje na revista Diapason, Lompech é produtor musical da France Musique desde 1982.

Como outro grande jornalista musical do século 20, Harold Schonberg, crítico do NewYork Times por trinta anos, entre 1950 e 1980, é respeitado internacionalmente como especialista em piano clássico. Daí a qualidade do livro. Suas 350 páginas sintetizam o saber acumulado em toda uma vida pessoal e profissional. Cada texto sobre os 44 pianistas que elegeu como os melhores do século 20 combina profundidade de conhecimento e escrita de faro jornalístico para o detalhe revelador.

Ao traçar o nascimento do piano moderno na primeira metade do século 19 com Chopin e Liszt, dois criadores opostos entre si mas igualmente geniais, Lompech duvida das escolas nacionais pianísticas originárias do século 19. "Antes de falar em escola francesa, por exemplo, é preciso falar de uma escola Isidor Philipp ou Margerite Long." Mesmo assim, estes mestres tiveram como alunos pianistas diferentes entre si: "Pode-se dizer que Wilhelm Kempff ou Arthur Rubinstein tocam de modo 'alemão'? Ambos passaram pelo mesmo mestre alemão, o severo Heinrich Barth, cujo ensino tipo 'velha escola' era de extremo rigor - o rigor que hoje se pensa ser nosso apanágio", ironiza. "Este professor era tão diferente de outro, alemão como ele, Martin Krause, que formará Edwin Fischer, Rosina Renard e Claudio Arrau - estes se parecem tão pouco que ninguém imaginaria que receberam os mesmos ensinamentos. E Arthur Schnabel, Ignace Paderewski e Benno Moiseiwitsch? Quem poderia sonhar que trabalharam com o mesmo Theodor Leschetitzky, aluno de Czerny, cujo credo era justamente não ter método?". Numa entrevista a France Musique disponível no YouTube, complementa que "o grande pianista é aquele que recebeu um dom que seu professor não consegue destruir".

O segredo do fascínio deste livro é um bônus imperdível: em dois CDs gravados em mp3, acumulam-se 16 horas de gravações, de Rachmaninov a Glenn Gould. É claro que várias dessas gravações históricas estão disponíveis no YouTube. Mas o som não recebe tratamento adequado. E Lompech felizmente nos livra dos malfadados picadinhos que não dão conta da real arte de cada um destes grandes mestres do teclado.

O primeiro CD começa com uma surpresa admirável: Rachmaninov interpretando na íntegra o Carnaval de Schumann, em registro de 1929. É um Schumann macho-man; mas o russo tem personalidade fortíssima, faz acelerandos desmedidos, fermatas longas, tudo com irretocável técnica.

Outro perfil imperdível é o de Alfred Cortot, um dos mais famosos pianistas do século 20, igualmente lembrado por seu panaché em Chopin, pela adesão ao nazismo na 2ª Guerra com Paris invadida e as notas erradas e esbarros de suas gravações. É mesmo essencial botar no microscópio cada nota só pra descobrir que uma ou outra não estão na partitura? O que importa é a intensidade que Cortot injeta em sua leitura dos 24 prelúdios opus 28 de Chopin, em registro de 1934. Uma revelação.

As pepitas se sucedem torrencialmente nos áudios. Ao todo, 44 pianistas, nove mulheres. No repertório, Beethoven reina absoluto: Schnabel toca a sonata nº18; Backhaus, a Patética; Yves Nat, a opus 109; Maria Yudina as Diabelli; Kempff, a 110; Arrau, a 111; Annie Fischer, as Variações Eroica; Sviatoslav Richter, a Appassionata; Solomon, o concerto nº 3; a amada Guiomar Novaes, o concerto nº 4, com a Filarmônica de Nova York e George Szell em 1952 (gravação disponível também como parte do livro Guiomar Novaes do Brasil, lançado pela Kappa Editorial).

Entre outras gemas, Brendel toca Liszt, Gould, o concerto de Bach BWV 1052, Gieseking, o primeiro livro dos Prelúdios de Debussy; Gulda, a Suíte Bergamasque de Debussy; Clara Haskil toca o concerto Jeunehomme de Mozart e as Variações Abegg de Schumann; Lipatti, na sonata K. 310 de Mozart e na Alborada del Gracioso, de Ravel. Por problemas contratuais, os pianistas mais contemporâneos não foram contemplados com áudio. Aí enquadram-se Daniel Barenboim, Radu Lupu, Maurizio Pollini, Maria João Pires, Martha Argerich e Nelson Freire. Não fazem falta, porque suas gravações estão disponíveis. O fascinante é este baú dourado do grande pianismo do século 20.

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