O piano e a voz do jazz em ebulição

Há quem afirme que os grandes da música mundial tudo podem, sem restrições. Há controvérsias, também. Um exemplo disso é o álbum antológico Ella Abraça Jobim, de 1981, em que Ella Fitzgerald (1918-1996) desfila o cancioneiro do "maestro soberano Antônio Brasileiro". As brincadeiras vocais da cantora americana são incontestes, mas existem deslizes. O maior deles é alterar o gênero de algumas letras, cantando, por exemplo Boy From Ipanema (Garoto de Ipanema) e He"s Carioca (Ele é Carioca). Não, ela não podia tudo. E estava sujeita a erros, obviamente.

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Porém, quando se tratava de terrenos pelos quais ela era capaz de caminhar de olho fechado, como o jazz americano, não tinha para ninguém. Mais uma dessas provas acaba de ser lançada aqui no Brasil, graças a uma feliz parceria da Biscoito Fino com selos estrangeiros. Depois de ter lançado o belo disco Tommy Flanagan & Hank Jones, a bola da vez é Oscar Peterson e Ella Fitzgerald.

O álbum são registros ao vivo da dupla em Lausanne, na Suíça, em 1953, que estavam guardados no baú da gravadora TBC, instalada em Montreux. Uma aula. E o ouvinte pode escolher entre o jazz cantado e o instrumental, com o privilégio de poder ficar com os dois, já que os gigantes Oscar e Ella duelam apenas no bom sentido. Respeitam tanto o espaço do outro que, das 13 faixas do álbum, as 7 primeiras trazem o piano de Peterson mais como pano de fundo, como cama para Ella, na ponta dos cascos, aos 36 anos, serpentear sua voz e fazer miséria com seus improvisos vocais. É uma jam session incendiária, com direito a temas na época já consagrados pela cantora, como Lady Be Good (Ira e George Gershwin), a sensual Why Don"t You Do Right (Peggy Lee) e até outros do início de sua carreira, quando bem menina atacava de crooner, como A Tisket - A Tasket (parceria dela com Van Alexander), de 1938.

Depois as alas são abertas para os diálogos instrumentais. Com reverências para o inconfundível sotaque do sax tenor de Lester Young, tocando um petardo seu, Lester Leaps In, ainda acompanhado pelo vocal de Ella e pela condução firme dos pratos da bateria de J.C. Heard.

Após o tema, o trio formado por Oscar Peterson, Ray Brown (baixo) e Barney Kessel (guitarra) interpreta as cinco faixas seguintes. Registro raro desta trinca de virtuoses, que pega fogo no palco com improvisos impensáveis em composições como The Surrey with the Fringe on Top, My Heart Stood Still, The Man I Love e a melodia familiar de The Continental (Herb Magidson). O disco tem clima, alternâncias de dinâmica, perguntas, respostas e comentários entre os instrumentos. Destaque para Oscar"s Blues, no qual Peterson passeia pelo piano enquanto Brown mantém seu walking bass maneirado e Kessel acompanha com a guitarra quase em silêncio. Peterson e Kessel depois fazem improvisos de levantar não apenas os presentes na gravação, na Suíça, mas também a quem ouve o disco ainda hoje, em qualquer lugar.

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