O pianeiro em pauta

Ernesto Nazareth tem a íntegra de suas obras reunida pela primeira vez

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2011 | 00h00

Conhecido nas rodas de choro por clássicos como Odeon, Apanhei-te, Cavaquinho e Brejeiro, Ernesto Nazareth (1863-1934) tem sua obra publicada na íntegra pela primeira vez. Os responsáveis pelo minucioso projeto contemplado pelo Programa Petrobras Cultural (PPC) são o pianista, compositor e produtor musical Thiago Cury e o músico e historiador Cacá Machado. A coleção Todo Nazareth - Obras Completas (Editora Água-Forte) é composta de seis livros de partituras, organizados por gêneros a que o compositor se dedicou: polcas, tangos (três volumes), valsas e peças de concerto e danças.

Um dos pilares da música popular urbana do Brasil entre o final do século 19 e início do século 20, o compositor e "pianeiro" (como ele mesmo se classificava) transitava na tênue fronteira entre o popular e o erudito, como outros de seus contemporâneos. Suas peças para concerto são menos conhecidas entre as 209 obras coletadas para esta edição, que exclui fragmentos, esboços e peças inacabadas. Essas estarão apenas no site www.ernestonazareth.org.br, que ainda está em construção e vai disponibilizar também todas as partituras.

A coleção impressa está à venda num box com todos os livros ou os volumes individuais, com preços que variam de R$ 32 a R$ 42 cada. Repetem-se em cada volume os breves textos sobre o compositor, a edição e o trabalho de recuperação das partituras, além de material iconográfico, cronologia, catálogo das obras e índice com todas as peças dos livros.

Durante três anos Cury e Machado trabalharam sobre o material de três acervos - Coleção Luiz Antônio de Almeida, Acervo Dimas e Acervo do Instituto Moreira Salles - e reconstituíram as peças de modo a preservar "a estrutura essencial". Nazareth escreveu e publicou muitas de suas partituras a toque de caixa, para atender à demanda do mercado editorial da época, o que resultava em edições pouco rigorosas, especialmente nas peças de dança. A dupla foi criteriosa na busca de uma padronização das partituras desse "homem de mercado", como diz Machado.

"Esse projeto tem a ver com um livro que eu publiquei em 2007, O Enigma de Um Homem Célebre: Ambição e Vocação de Ernesto Nazareth, resultado de minha tese de doutorado. Estudo a obra de Nazareth desde 1995/96 e naturalmente fui recolhendo essas partituras todas, pela necessidade de fazer aquele trabalho", diz Machado. Na ocasião da defesa da tese, uma das integrantes da banca examinadora sugeriu que ele publicada uma edição definitiva da obra do compositor.

Amigo de Machado, Cury, que já tinha publicado Willy Corrêa de Oliveira - O Presente, por sua editora Água Forte, dentro da série Resgate, abraçou a ideia do projeto e ambos o inscreveram no PPC em 2008. "Começamos a trabalhar nas partituras de Nazareth também a partir do resultado do Willy Corrêa, que tinha um CD produzido por mim acompanhando o livro", diz Cury.

Apesar de ter poucas músicas reconhecidas pelo grande público, Machado diz que "Nazareth até que foi bem servido pela História", lembrando da antológica série gravada pelo pianista Arthur Moreira Lima, pelo selo de Marcus Pereira, na década de 1970. "A ambição do nosso projeto foi estabelecer a obra dele completa."

Há diversos autores que caíram no esquecimento por dificuldade de se encontrar partituras para terem suas obras executadas. Machado e Cury listam entre outros, Anacleto de Medeiros, Henrique Alves de Mesquita, Patápio Silva, Marcelo Tupinambá. "Agora na Água Forte, a gente está estudando, junto com (os violonistas) Gilson Antunes e Fábio Zanon, a obra de João Pernambuco. Estamos montando o projeto ainda", diz Cury.

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