O peso e a leveza da morte

MOACIR AMÂNCIO

MOACIR AMÂNCIO, POETA, PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA DA USP, É AUTOR DE ATA (RECORD), YONA, O ANDRÓGINO - NOTAS SOBRE POESIA, CABALA (NANKIN/EDUSP) , O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2011 | 03h09

A quele notável poema de Murilo Mendes sobre a beleza e a morte, inspirado pela paisagem estonteante de Taormina, onde o mar fica sob a guarda milenar e ameaçadora do Vesúvio, pode ser lembrado ao longo da leitura deste Sísifo Desce a Montanha, de Affonso Romano de Sant'Anna, como uma grande epígrafe. O próprio autor assinala, um livro de poemas não deve simplesmente ser uma coleção de textos aleatórios, e sim resultado de um projeto que se pode esgotar ali ou ter prosseguimento. Nem sempre o que um poema diz corresponde a uma realização, mas isso ocorre neste livro, sólido em sua temática, uma longa reflexão fragmentária sobre as variações da vida e a unicidade da morte. São interrogações, notas líricas, de um eu lírico que vibra com o que poderíamos chamar de epifanias para o bem e para o mal, com o distanciamento da ironia e do humor inteligente.

Não estamos, portanto, diante de um autor casmurro, pessimista, enfadonho, pelo contrário, Sant'Anna deixa falar o veio antigo de uma espécie de, à falta de outra palavra, sabedoria jovial que tem o paradoxo no horizonte: "Descer com uma pedra / nos ombros / - pode ser leve." Fala, com o mesmo ímpeto vital, do único peixe pescado na infância mineira, do sublime das paisagens históricas do Mediterrâneo, das misérias sociais e morais, da erótica, do avião, da cena carioca, até dos modismos universitários que parecem descobrir a verdade absoluta a cada época, em autores de ocasião. Sant'Anna, um analista importante da literatura e da cultura, grande leitor de Drummond e Jorge de Lima, não deixa de lado a veia crítica, tornando-a aliada muito próxima da poesia.

Com certeza é esse mesmo senso crítico que orienta a sua linguagem segura, enxuta, limpa de afetação e capaz de driblar as banalizações da linguagem - essas duas pontas minariam o fluxo poético. É um autor erudito, mas a erudição não se torna pedante, está presente, porém depurada. Os olhos que veem as pirâmides, Delfos, Jerusalém, a Itália ancestral (mãe italiana), não são ingênuos, mas isso não impede a tentativa de flagrar o espontâneo, o novo que se acrescenta ao lido e vivido, ao representar um elo entre o passado e o presente, uma chispa - cabe ao poeta captá-la, tornando-a acessível ao leitor. Num certo aspecto, este é um livro de lugares, de viagens. O poeta parece estar viajando mesmo quando se encontra no Rio de Janeiro, onde vive, ou talvez seja apenas mais uma estação de passagem desse cidadão do mundo. Atente-se, o universalismo não é uma aspiração abstrata, mas uma prática e uma imposição dos tempos atuais. O autor "simplesmente" vive isso, este nosso tempo, para, como diz, "jogá-lo dentro do poema".

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