O peso de um nome

Amilton Godoy abre mão da marca Zimbo e põe fim a um patrimônio da cultura brasileira

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2013 | 03h04

Algo ali dentro se divide entre indignação e tristeza. A raiva, o tempo parece ter equilibrado. Amilton Godoy tem os olhos vermelhos. Sua decisão de não mais usar o nome Zimbo Trio, ele sabe, vai lhe custar caro. Mas, talvez, não mais caro do que a sensação de ter perdido a guarda de um filho.

O Zimbo Trio surgiu justamente da ideia de não personalizar jamais um grupo que, por essência, não teria líder. Quando Elis Regina quis tê-lo como exclusivo, ficou cantando sozinha. Ao saber agora que o nome Zimbo tem dono, e que esse dono era o homem que estava a seu lado por quase 50 anos, o pianista tenta entender em que mundo vive. E ainda não tem respostas.

Amilton conta que Rubinho ficou com o nome Zimbo em uma partilha de empresas que fizeram depois da morte do baixista Luis Chaves. Se não concordasse, teria seis anos para contestar a posse na Justiça. "Mas eu não sabia. E só fui informado que o nome era de Rubinho agora, quando venceu o prazo da contestação." Ainda assim, diz que vai à Justiça para reaver o nome, mas que não contará mais com isso para tocar a vida. "Vou fazê-lo apenas como obrigação moral, mas não sei como estarei em oito, dez anos."

Diz que não há vaidade em sua decisão de abrir mão da marca ao saber que deveria prestar contas e ressarcir o dono do nome caso viesse a usá-lo novamente. "Eles (representantes de Rubinho) queriam que eu trabalhasse para ele, isso depois de 50 anos de história. O que eu vou dizer para os fãs do grupo?" Ele conta que não tomou a decisão de abrir mão da marca por vaidade. "Perco 50 anos de história com isso." Os próximos trabalhos serão apresentados, a partir de agora, com o nome Amilton Godoy Trio.

Rubinho, em tratamento médico, tem sido representado pelo advogado Fábio Sperli e pelo sobrinho do músico, o publicitário Luis Celso Piratininga. Luis Celso preferiu não entrar em detalhes ao receber a ligação da reportagem. "É prematuro fazer isso. Há uma precipitação na posição do Amilton em divulgar qualquer coisa. Não vamos nos posicionar diante de um assunto que ainda está sendo tratado entre os sócios", diz o publicitário, referindo-se a Amilton e Rubinho.

Fábio Sperli também se surpreendeu com a ligação. "Isso não era para ser tratado em público, desta forma. Íamos fazer uma reunião na semana que vem para definir como seria divulgado, não é assim que se apaga a luz de uma história como esta." Um pouco mais adiante, Fabio abre mais do que teria levado o baterista a se posicionar contrário ao uso do nome por Amilton. "O nome não é só do Rubinho, como também não é apenas do Amilton. Ninguém pode individualmente se aproveitar de algo que tenha sido criado pelo coletivo. O Zimbo é maior do que uma pessoa."

Amilton diz que jamais deixou Rubinho fora do grupo. "Sentíamos que ele não estava bem, mas, mesmo assim, eu o chamava para fazer participações em algumas músicas. Sabia que ele poderia piorar se não continuasse na ativa." As mágoas do pianista parecem aumentar quando conta que responde ainda a um processo no qual Rubinho o acusa de tê-lo tirado do trio. "Eu nunca fiz isso. Rubinho parou de tocar por causa de seu estado de saúde." E segue: "Ele diz que foi impedido de entrar no Clam (a escola fundada pelo grupo) e de não ter acesso a informações da empresa. Puxa, eu sempre o paguei, mesmo não contando com ele no dia a dia da escola."

Os esforços do pianista, agora, são para se firmar com seu próprio nome. "Não está sendo fácil vender seus shows sem a marca Zimbo", diz a filha, Dani Godoy. Um desafio do tempo a um homem de 72 anos que pode se surpreender assim que subir ao palco, pela primeira vez em 50 anos, como Amilton Godoy.

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