O peso da poesia cristã

Obra reúne poetas franceses convertidos ao cristianismo que tiveram influência aqui

RODRIGO PETRONIO É POETA, PROFESSOR DA FAAP, AUTOR DE PEDRA DE LUZ, VENHO DE UM PAÍS SELVAGEM (TOPBOOKS), ENTRE OUTROS, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h11

RODRIGO PETRONIO

Há diversas possibilidades de abordar a literatura. Na antologia O Rumor dos Cortejos: Poesia Cristã Francesa do Século XX, o poeta, pesquisador e tradutor Pablo Simpson optou por um recorte ousado, e, por isso mesmo, instigante.

No Brasil, alguns dos poetas que integram a coletânea foram assimilados à vertente espiritualista de Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima. Além de traduzidos por Guilherme de Almeida, Mário Faustino e Carlos Drummond de Andrade, eram admirados por Murilo Mendes, Vinicius de Morais, Cecília Meireles e Tasso da Silveira, para ficar em alguns nomes de maior peso. De maneira difusa, ressoam na obra de poetas contemporâneos franceses, como Bonnefoy, Déguy e Jaccottet. A despeito disso, permanecem pouco conhecidos dos leitores do País.

Durante o século 20, o cristianismo não teve apenas uma função religiosa na França. Do humanismo integral de Maritain ao personalismo de Mounier, do neotomismo aos pensadores inspirados em Bergson, da renovação metafísica de Gilson, Marcel e Lavelle à hermenêutica de Ricœur, da fé agônica de Bernanos à teoria mimética de Girard, da filosofia da ação de Blondel ao ateísmo cristão de Bataille seus desdobramentos intelectuais foram muitos e profundos.

Em alguns poetas da antologia sobressai a voz confessional. É o caso de Péguy e Claudel, expoentes do catolicismo francês. A rusticidade do primeiro contrasta com o tom devocional e os versos bíblicos do segundo. Mas ambos condensam a experiência poética como uma celebração do mistério. Em outros autores, a cosmovisão cristã surge sob um véu quase panteísta. Em Pierre Emmanuel, ela surge na sacralização das imagens da natureza mescladas à mitologia e em Francis Jammes, nas belas paisagens vitrais.

Mas é da ambivalência estrutural entre sagrado e profano que surgem os pontos altos do livro: Jacob, Jouve, Reverdy, Lubicz-Milosz. É difícil delinear até que ponto as vertentes surrealista ou cubista, a que são associados Jacob e Reverdy, podem ser dissociadas de uma experiência visionária de inspiração religiosa. Em Jouve e Milosz, a descrença, transfigurada no templo profano da poesia, acaba se traduzindo em uma paradoxal possibilidade de acesso ao divino. Nisso parece residir um dos mistérios da condição humana, captado pelo cristianismo e enfatizado pelos poetas de todos os tempos e crenças: Deus só se revela na dúvida.

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