O peso da ausência

O chileno Antonio Skármeta fala de seu romance Um Pai de Cinema, sobre as brechas da paternidade

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2011 | 03h07

O escritor chileno Antonio Skármeta é um apaixonado pelo cinema - escreveu diversos roteiros, dirigiu dois filmes e participou como ator em outros cinco. O fascínio pela imagem contamina sua literatura mas, antes de acentuar uma prosa rápida e ativa, incentiva a poesia. Resultado: suas obras têm a cadência de um longa-metragem e a linguagem expressa os remansos da existência humana, acontecimentos pouco espetaculares que formam a maior parte da trama da vida. É o caso de Um Pai de Cinema, seu novo romance que a editora Record lança na próxima semana.

"Quando escrevi esse livro, busquei um texto íntimo, tranquilo, com as emoções brotando sem nenhum ruído, sem nenhuma interferência", disse Skármeta ao Estado, por telefone, desde Santiago do Chile. "E decidi ambientar a história em um período em que ainda não havia internet, iPod, iPad, aviões supersônicos, ou seja, quando as pessoas se entretinham apenas com suas almas."

Um Pai de Cinema acompanha a trajetória de Jacques, jovem professor de uma escola do povoado de Contulmo. Para complementar o salário, ele faz traduções do francês a fim de garantir um certo conforto à mãe, com quem vive. Jacques, no entanto, não é totalmente feliz, pois é acompanhado por um grande sentimento de desamparo depois de abandonado pelo pai, que teria retornado à França. A vida cotidiana com amigos e alunos sofre um abalo quando, ao visitar o povoado vizinho de Angola para se iniciar sexualmente em um prostíbulo, ele se encontra com Pierre, pai de um menino e gerente de um cinema.

"Relações familiares são um dos temas mais intensos da literatura mundial", observa Skármeta, lembrando de obras poderosas, como Carta ao Pai, em que Franz Kafka desfia suas frustrações diante das intransigentes atitudes paternas. Um Pai de Cinema, porém, vai no sentido contrário, pois, em meio à sensação de vazio provocada pela ausência paterna, Jacques, a partir de um ato corajoso, provoca um transbordamento de carinho.

"Depois de terminado o romance, eu o reli três ou quatro vezes e sempre me descobri emocionado com o final: mesmo abandonado pelo pai, Jacques, quando descobre que ele tem outro filho, oferece a esse bebê a única coisa que tem, que é a mãe. Isso concede à trama a altura de uma tragédia."

Aos 71 anos, Antonio Skármeta desfruta o prazer do sucesso. Seu romance Ardente Paciência, publicado em 1985, inspirou um dos filmes mais queridos do fim do século passado, O Carteiro e o Poeta, dirigido por Michael Radford em 1994 e que retrata a construção da amizade de um carteiro com o poeta Pablo Neruda, quando ele se isolou em uma pequena ilha italiana depois de obrigado a deixar o Chile.

A linguagem rudimentar do carteiro poderia contrastar com a exuberância do poeta não fossem as metáforas que cada um oferece ao outro, transformando a amizade em uma lição de vida. "Para escrever Um Pai de Cinema, ao contrário, não me baseei em uma história real. Minha única pesquisa foi visitar aqueles pequenos povoados chilenos onde se passa a história."

Como de hábito, Skármeta buscou ternura nos detalhes. Uma de suas cenas preferidas é a da iniciação sexual de Jacques, que encontra uma prostituta versada em geografia, uma das disciplinas que leciona na escola. "Ali, pretendi mostrar que em todas as partes do mundo, até mesmo nas mais sórdidas, é possível criar um toque de ternura. Há espaço para detalhes delicados que podem iluminar a vida por um dia."

Jacques tornou-se, assim, um dos grande personagens de Skármeta, também um de seus preferidos. "Trata-se do filho que, órfão emocional, vai amadurecendo até se tornar praticamente pai do próprio irmão."

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