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O pescador português

George Mendonsa e eu estávamos em Nova York em 14 de agosto de 1945; ele beijando uma enfermeira, que rendeu uma foto histórica, e eu prestes a embarcar para o Brasil

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

10 de março de 2019 | 02h00

No dia 14 de agosto de 1945, o marinheiro George Mendonsa, filho de imigrantes portugueses, e eu, estávamos juntos em Nova York, mas em circunstâncias completamente diferentes. Eu prestes a fazer 9 anos de idade, de passagem por NY para pegar um navio que nos traria de volta ao Brasil depois de dois anos na Califórnia, George com 23 anos, ocupado em beijar quem aparecesse na sua frente de saia, para comemorar a rendição do Japão e o fim da Segunda Guerra Mundial. Não, não vi o marinheiro em ação e só depois fiquei sabendo que uma das fotos do beijoqueiro tiradas na Times Square – ele dobrando uma enfermeira ao meio num beijo cinematográfico – tinha se tornado famosa como símbolo da euforia daqueles dias. A revista Life fez uma edição especial da vitória com a foto na capa. O curioso é que o marinheiro e a enfermeira só foram se rever anos depois, quando a identidade dos dois foi posta em dúvida. Como a foto deu dinheiro e as feições do casal se beijando não apareciam com clareza, muita gente reivindicou o que não lhe cabia. O próprio fotógrafo não ganhara muito com seu flagrante histórico. 

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Outra coisa estava acontecendo, em meio àqueles festejos. No dia 6 de agosto, uma bomba atômica tinha sido lançada em Hiroshima. Dias depois, outra bomba atômica arrasara Nagasaki. Poucos na multidão que lotava a Times Square no dia 14 saberiam dizer onde ficavam Hiroshima e Nagasaki, ou discutiriam a importância de usar qualquer arma, em qualquer grau de horror, para acabar com uma guerra que já matara tantos. Depois da festa, veio a reflexão, quando a decisão de usar ou não usar bombas nucleares sobre zonas habitadas deixou a história das frias opções militares e passou a pertencer à história moral do século. O argumento de que só a ameaça de usar as bombas, em demonstrações sem vítimas, convenceria o Japão a se render, não prosperou. Ou só foi opção quando mais 200 mil já tinham morrido.

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Nem George Mendonsa nem a multidão na Times Square no dia 14 sabiam da existência do Manhattan Project, o programa ultrassecreto americano que produziu o par de bombas que, literalmente, estouraram sem aviso em nossas vidas. George morreu na semana passada, aos 96 anos de idade. Segundo o New York Times, depois da Marinha, ele tentou fazer várias coisas, mas nada muito excitante parece ter lhe acontecido depois daquele beijo. George acabou indo trabalhar com o pai, como pescador. 

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