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O pesado mundo dos gordos

Ponha-se no meu lugar, disse ele - e eu, por um segundo, dei sentido literal à frase feita: pôr-me, fisicamente, no lugar daquele homem escarrapachado à minha frente.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2014 | 02h08

Espaço não faltava, pois Inácio era enorme, vastíssimo, quase digo hipopotâmico, espraiado por 180 quilos que praticamente preenchiam todo o sofá de dois lugares, o qual por sua vez tomava boa parte da claustrofóbica salinha de teto baixo naquela casa de vila em bairro paulistano de classe média pobre - tudo isso, se você ainda não perdeu o fôlego, banhado pela luz frouxa de um fim de tarde de inverno. Ao contemplá-lo em tal cenário, não houve como não pensar em Alice quando, em seu país das maravilhas, ela morde um cogumelo e dispara a crescer, enchendo a paisagem.

Se eu estava ali, era exatamente para tentar me pôr no lugar de alguém como Inácio, em sentido figurado, é claro. Queria, e não apenas como repórter, saber como é que o mundo trata uma pessoa situada à margem dos cânones da chamada normalidade física. Um gordo. Um calvo. Um anão. Ou um gigante, que atravessará a vida a ouvir perguntas sobre basquete e camas curtas demais para o esqueleto. Se me permite o tom enjoativo de autoajuda: colocar-se na situação do outro é sempre um exercício salutar.

No caso do Inácio, uma tristeza simetricamente pesada denunciava maus-tratos por parte do mundo, da humanidade, quem sabe de um Deus que ao criá-lo houvesse exagerado na dose de barro. Sua quase indecorosa tonelagem parecia tê-lo condenado a encarnar os papéis que a sociedade reserva aos gordos. Com seu physique du rôle - ou de rolo, se você quiser uma pitada de maldade -, o Inácio não escapou de ser a "baleia" da escola e, mais adiante, Rei Momo, o mais merencório, imagino, de quantos já (des)animaram o carnaval de São Paulo.

Quando o conheci, trabalhava numa indústria de cerveja, e entre suas obrigações funcionais havia a de participar de desenfreadas comilanças. Mesmo sem fome, o Inácio comia profissionalmente. E odiava a rotina de mastigador compulsório. "Numa churrascaria-rodízio", suspirou, "as pessoas não tiram o olho e acham que você não vai deixar carne para mais ninguém." Pior que isso, só a humilhação de subir na balança de carga, pois as normais não vão além dos 150 quilos.

De minha parte, eu que mal chegava aos 70, fui descobrindo o quanto o mundo dos gordos pode ser pesado. A etimologia me fez descer à palavra latina gurdu, cujo significado remete a rótulos nada enaltecedores: estúpido, vagaroso, molengão, desajeitado. E ainda, em certos casos, mentiroso: o dono de uma loja de roupas especializada em tamanhos várias vezes G me contou que "mulher não mente só na idade, mas também no peso", pois pede um 46 quando sabe que mal caberá num 56.

Eu não sabia também que mesmo um elogio pode doer como agressão - até ouvir de uma entrevistada: "Dizer que um gordo tem um rosto bonito, olhos maravilhosos ou dentes lindos costuma ser uma forma de ignorar que ele tem um corpo". A constatação foi confirmada por uma psicóloga em cujo divã reforçado se deitavam pacientes com problema de obesidade: "Essas pessoas", me disse ela, "produzem muito o rosto, escolhem bem os óculos, capricham no penteado, tudo para os outros não reparem no resto".

Na impossibilidade de serem ativos, lépidos e esportivos, aprendi, muitos gordos buscam papéis alternativos que os façam aceitos e, quem sabe, até amados. A maioria, contou ainda a psicóloga, ela própria depositária de uns quilos a mais, tenta criar uma imagem de simpático, bonzinho, engraçado, bonachão. Fiquei com a impressão de que poucos se sentem verdadeiramente à vontade em sua adiposidade triunfante. Uma entrevistada, é verdade, garantiu que "o gordo é mais aconchegante, melhor de abraçar". Mas não levei meu zelo de repórter ao extremo de pôr de lado a caderneta de anotações e testar eu próprio o que afirmava a moça.

Epa, a crônica engordou sem que eu percebesse, e falta espaço para relatar mais experiências, minhas e alheias, todas no sentido de fazer o que me sugeriu o Inácio na primeira linha, pondo-me no lugar do outro, não necessariamente gordo. Gostaria de contar que quase fui anão, e resumir a epopeia de um louro de olhos azuis que foi preto por uns tempos. Permita-me reincidir na semana que vem, se houver.

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