O perigo

Reforma política já! Mas que reforma, você sabe? Voto distrital, voto distrital-misto, voto proporcional? Qual o melhor? Aliás, responda rápido, que processo eleitoral temos hoje? Existe fidelidade partidária?

MARCELO RUBENS PAIVA, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2014 | 02h05

Sei que muitos candidatos com menos votos que outros ocuparão uma cadeira do Legislativo. Existem campeões de votos que arrastam nanicos. Existem casos declarados, como o de Celso Russomanno (PRB-SP), que concorreram apenas para transferir votos.

Essa incoerência rege o seu País.

Em 2013:

Brasil surpreendeu o noticiário com manifestações que pediam um basta à corrupção, questionavam eventos organizados pela FIFA e exibiam incongruências políticas de uma democracia cheia de falhas, com baixa representatividade, apática ideologicamente, cuja esquerda e direita se confundem, assim como progressistas e conservadores, e criam a grande aliança da ilusão, com interesses de clãs da política tradicional, de norte a sul, para conjugar a governabilidade, que fecha os olhos para a corrupção, negocia com partidos de aluguel, cuja população furiosa cercou o Congresso, chegou às portas dos palácios, interrompeu sessões do Senado e do STF, sitiou deputados e botou fogo numa Assembleia Legislativa.

Em 2014:

Brasil virou gozação. As eleições são um sucesso nos programas humorísticos ou não. Não porque se trata de uma das eleições mais disputadas de todos os tempos, em que três candidatos alternaram em um mês a liderança do segundo turno, mas por causa do sistema eleitoral bizarro, que nos leva a ter três candidatos ao Legislativo com o nome Barak Obama, sendo que nenhum deles se parece com o cara.

O jornal inglês The Telegraph tentou explicar que no Brasil é comum as pessoas incorporarem apelidos. Edson Arantes é Pelé, Luiz Ignácio é Lula, Claudio Henrique dos Anjos virou Obama, candidato 1302 do PT, cujo lema era o enigmático "nada resiste ao trabalho", que, pensando bem, não significa nada, diferentemente do preciso e cativante "yes we can" do original, já que a lei eleitoral permite a mudança de nome, eleição que teve O Nojento (The Disguting One) e Pijama.

A matéria da repórter da CNN, Shasta Darlington, Wacky Adds Woo Brazilian Voters (Propagandas Malucas Espantam Eleitores Brasileiros), tornou-se viral. Inspirou comentários sarcásticos de John Oliver, ganhador de três Emmys, que comanda um programa de sátira política na HBO, Last Week Tonight.

CNN e HBO mostraram propagandas dos candidatos Tiririca, Mortadela, Satã (7766), Jesus (33333), vestido de Jesus, filiado ao PMN, da chapa do PSOL-PE, Mulher Maravilha, o candidato do PRP, Paulo Batista (44777), com seu "raio privatizador", o candidato do PSDB, Presidente THC, que propunha a legalização da maconha e, lógico, Bin Laden, do PEN, fantasiado de Bin Laden, com o número escrito 5186 num papelão improvisado.

Se o PT tem Obama, Bin Laden tentou a vereança pelo PSDB em 2012.

Para a CNN, a explicação é: votos são obrigatórios no Brasil, e depois das manifestações de 2013, em que se protestou contra a política partidária, muitos resolveram demonstrar sua indignação se tornando candidato, tiraram vantagens da lei que garante propaganda eleitoral gratuita e transformaram a eleição num programa humorístico. A matéria termina com Tiririca, que informa qual é o verdadeiro papel dos políticos: o higiênico.

Oliver foi mais duro. Riu do fato do voto ser obrigatório. "No Brasil, é ilegal NÃO votar, e a gente sempre tem a tendência de se revoltar, quando nos obrigam a fazer algo de que não gostamos... Se pensarmos que eles têm que escolher entre Jesus, Satã e Bin Laden, nós não somos tão estranhos como pensamos", finalizou sob gargalhada da plateia (americana).

Não é apenas aqui que a democracia representativa e o fim das ideologias apresenta aberrações. A Itália, que já elegeu a lendária atriz pornô La Chicholina, tem o palhaço Bebe Grillo (Grilo Falante) como o fiel da balança entre o poder da esquerda ou direita. Terceira via, em 2013, seu partido Movimento 5 teve 25,55% dos votos para a Câmara dos Deputados. Apesar de confuso e ingênuo ideologicamente, é o maior do Congresso. Grillo parece um bufão. Tem poder. O compararam a Mussolini. A revista alemã Der Spiegel já o chamou de "o homem mais perigoso a Europa".

O eleitor brasileiro foi mais razoável e preferiu um bipartidarismo que simula a luta de classes. A terceira via taxiou e voltou para o finger. Seus passageiros foram transferidos para outras companhias, à esquerda e à direita. Nossa terceira via, Marina Silva, depois de sair do PT, foi para o PV, rachou o partido, saiu, fundou a Rede, foi para o PSB, rachou o partido e acabou de rachar a Rede, ao apoiar Aécio.

Uma leitura superficial: Marina Silva faz estragos por onde passa por não ter clareza ideológica, nem convicções, o que seus correligionários descobrem tarde demais, muda de opinião, reescreve programas, alinha-se a antigos adversários, contra antigos aliados.

Em termos: Marina Silva é o modelo daquilo que a psicanálise chama de "transferência". Eleitores e lideranças veem nela o que gostariam que ela fosse, veem refletidos nela o próprio inconformismo, esperança, vontade de mudar e se criar uma nova política idônea, justa, exemplar, incorruptível, numa economia ecologicamente sustentável, que alie progresso a qualidade de vida, tecnologia a respeito ao meio ambiente, que respeite as diferenças, que seja tolerante com homossexuais e usuários de drogas, nortista de fala mansa, brilhante, experiente, cativante, com ideias progressistas.

Ou: Marina Silva é um capricho da nossa fantasia, uma nortista de fala mansa, brilhante, experiente, cativante, que puxa reza, sempre com um terço na mão, tem uma noção dividosa sobre estado laico, casamento gay, Darwin e, mesmo como líder feminina, criminaliza o aborto.

Por mais divertida e patética que tenha sido a propaganda eleitoral, há que se temer pelo seu resultado: uma bancada irresponsável, sem ideais. O trinômio partido + horário eleitoral gratuito + fundo de campanha, sobre o tapete do voto proporcional, interroga a democracia.

Tiririca nunca subiu no púlpito, nem fez nenhum pronunciamento na Câmara, mas defendeu como ninguém, em mais de 30 projetos, os direitos de ciganos e artistas de circo, regulamentou profissões de gente do picadeiro. Faz a sua parte.

Porém, arrasta na sua votação enorme candidatos de que não sabemos a origem e não elegemos. Está certo? Reforma política já!

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