O perene desafio de Hélio Oiticica

Extensão da mostra Museu É o Mundo permite avaliar a força de sua arte

Camila Molina - O Estado de S.Paulo

18 Março 2010 | 09h13

Nas Quebradas (PN28). Penetrável de Oiticica com "assimilação das construções das favelas"

 

Em 1979, o penetrável Nas Quebradas (PN28), "assimilação das construções das favelas", como define o curador Fernando Cocchiarale, foi instalado em um galpão em São Paulo por Hélio Oiticica. Tal como definia o artista sobre essas instalações, era um labirinto sem teto, "espaço livre" para o "participador" entrar, caminhar, ter uma "visão e posição diferentes" do que seria a obra - e agora, o Nas Quebradas renasce e retorna à cidade, abrigado dentro do Teatro Oficina (foto acima). "O penetrável vai ser incorporado às nossas peças", diz a atriz Camila Mota, integrante do grupo do diretor José Celso Martinez Corrêa. A partir da abertura da exposição Hélio Oiticica - Museu É o Mundo, realizada pelo Itaú Cultural, Nas Quebradas poderá ser experimentado pelo público e, em abril, a instalação vai integrar as apresentações dos espetáculos Taniko, Estrela Brazyleira a Vagar - Cacilda!!, Bacantes e O Banquete.

 

Ainda, de frente para o Teatro Oficina, Oiticica estará presente: sete de seus Cama-Bólide, caixas de madeira com tendas criadas em 1968 que, como o título, se transformam em camas, ficarão abrigados na Rua Jaceguai. "É o mais imprevisível dos trabalhos", diz Camila Mota - naturalmente, as obras estarão à disposição dos mendigos da região. "Nosso objetivo de atuar com os bólides era inventar algo criativo para lidar com o problema de falta de moradia", continua a atriz.

 

Antiarte. O anarquista e "marginal" Hélio Oiticica - que tinha uma vida social no Morro da Mangueira e, como "amigo bandido", o Cara de Cavalo. Em 1965 foi expulso da abertura da mostra Opinião 65 do Museu de Arte Moderna do Rio por levar ao evento os integrantes da escola de samba Mangueira vestidos com parangolés (as capas coloridas que eram a pintura-viva do artista) - ficaria satisfeito se hoje presenciasse suas obras no bairro do Bixiga. "Antiarte é a proposição da fusão criador-espectador", afirmou o artista em 1966. "Sua vivência no morro não foi a de um sociólogo, mas verdadeira e íntegra", diz Cocchiarale, completando que a postura política do artista era "libertina", voltada para a "revolução comportamental do indivíduo".

 

Ao mesmo tempo em que um trabalho de 1968 como o Cama-Bólide seja atual e provocativo, a inauguração da mostra do artista, no sábado, no Itaú Cultural, já revela que alguma coisa mudou: 13 integrantes da Mangueira vestidos com parangolés foram convidados pela instituição para abrir a exposição e isso, agora, não causa mais estranhamento (a abertura ainda contará com participação do músico Jards Macalé e de integrantes do Teatro Oficina). Inevitavelmente, como afirma Cocchiarale, o mercado, "como absorve tudo", incorporou a antiarte de Oiticica, valorizando suas obras, hoje presentes em renomadas instituições internacionais. Inevitavelmente, ainda, o incêndio, no ano passado, que destruiu obras do artista (leia abaixo) contribuiu para elevar ainda mais seus preços.

 

Documentário. No Itaú Cultural, o visitante pode optar por um trajeto cronológico e linear para ver a carreira e pensamentos do artista. Considerada pelo diretor superintendente da instituição, Eduardo Saron, a exposição mais importante do Itaú Cultural nos últimos anos - a mostra ainda vai se desdobrar em seminário, projeto educativo, na realização de amplo catálogo, documentário e mais alimento para a seção Programa Hélio Oiticica, no site da instituição -, ela começa no primeiro andar do prédio, apresentando a passagem do artista da pintura bidimensional para as experimentações espaciais e ambientais.

 

Há, nessa primeira sala, desde as pinturas concretas que ele criou jovem, a partir de 1955, no Grupo Frente carioca. Já nessa época começam as inquietações de Oiticica com o plano - em 1959 ele começa a integrar o grupo Neoconcreto -, com a realização emblemática dos seus chamados Relevos e Núcleos (estruturas geométricas monocromáticas suspensas tornam o pictórico tridimensional). Nessa sala, ainda, está um dos primeiros penetráveis feitos pelo artista, um pequeno "espaço cromático" nas cores amarelo e laranja.

 

Já nos dois andares subsolos do prédio, vão se dialogando as proposições em que o experimental ganha corpo total. Foi construída numa das salas o emblemático penetrável Tropicália, de 1967 - com plantas e até duas araras engaioladas, inspirou o nome do movimento cultural brasileiro - e, em outra, o Rhodislândia. Sem contar ainda réplicas de parangolés para serem usados, vídeos e a primeira Cosmococa (da série de videoinstalações feitas com o cineasta Neville D"Almeida). Depois, as obras de Oiticica ganham a rua. "Por conta da Lei Cidade Limpa (de São Paulo), tivemos alguns problemas porque as obras podem ser consideradas outdoors", diz César Oiticica Filho. Mas, afinal, tudo se ajeitou.

 

BÓLIDES, por Oiticica

Transobjetos

"A necessidade de dar à cor uma nova estrutura, de dar-lhe "corpo", levou-me às mais inesperadas consequências, assim como o desenvolvimento dos Bólides (na foto, um de 1964) opacos aos transparentes, onde a cor se apresenta no seu estado pigmentar"

 

HÉLIO OITICICA - MUSEU É O MUNDO

Itaú Cultural, Avenida Paulista, 149, telefone 2168-1776. 9 h/20 h (sáb., dom., 11 h/20 h; fecha 2ª). Grátis. Abertura sábado

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