O percurso do Senhor K. nos subterrâneos brasileiros

"Além do mundo que se vê e nos acalma com seus bons-dias boas-tardes, seus como vai tudo bem, há um outro que não se deixa ver, um mundo de obscenidades e vilanias. "

Maria José Silveira,

26 de novembro de 2011 | 06h00

É sobre esse mundo que nos fala Bernardo Kucinski no recém-lançado K., romance composto por fragmentos que podem ser lidos de forma independente, como se o autor quisesse nos mostrar que a ordem dos capítulos não é requisito para se lidar com um mundo sem ordem aparente.

K. é o pai que busca sua filha desaparecida pela ditadura civil-militar.

A filha é Ana Rosa Kucinski Silva, casada com Wilson Silva. O casal foi preso e "desaparecido" pela repressão em abril de 1974, ambos com pouco mais de trinta anos. Ana Rosa era química, professora da USP, Wilson Silva era físico, militantes da ALN (Aliança Libertadora Nacional), e deles a repressão não deixou o menor sinal.

Aliada à angústia de não saber do paradeiro da filha, o senhor K., resistente judeu que veio para o Brasil escapando do nazismo na Polônia, é um pai que vê ser erguida a sua frente, tijolo a tijolo, uma muralha kafkiana (o K. do título é a referência explícita do autor ao mundo criado aqui não pela alienação mas pela violência e cinismo políticos) . Diz o autor na introdução: "Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu. Deixei que lembranças fluíssem diretamente da memória, na forma como lá estavam, há décadas soterradas, sem confrontá-las com pesquisas, sem tentar completá-las ou lapidá-las com registros da época."

O senhor K. é também escritor e poeta, devotado cultor da língua iídiche. E tão preocupado estava com o desaparecimento do iídiche, sua língua mãe, que não se deu conta das trilhas que levariam ao desaparecimento da própria filha. Dolorosa ironia. Pela filha, agora, ele bate em todas as portas possíveis onde vai se deparando com as vilanias da covardia e da opressão. Felizmente, abre também algumas portas de solidariedade.

O livro nos leva junto no percurso desse pai. E passamos pela descoberta dos informantes da polícia em seu próprio bairro, passamos pela faxineira que descreve o funcionamento da "Casa da Morte" em Petrópolis, entrevemos a trama do envolvimento dos empresários que financiavam os subterrâneos das torturas, entramos na reunião dos professores do Instituto de Química que a demitiram por "abandono de emprego", pela recusa de um rabino de permitir que o pai encomendasse uma lápide ("matzeivá") um ano depois do desaparecimento da filha, ouvimos a conversa da amante do Fleury, atendemos os telefonemas falsos que ainda hoje perseguem a família. E, no final, lemos uma carta dolorosa e lúcida a um militante ainda vivo, responsável por outro crime terrível, em um momento de crimes terríveis.

Bernardo Kucinski é jornalista premiado e cientista político, professor da USP. "Polêmico e com fama de briguento", como está em seu perfil na Wikipédia, trabalhou como assessor da Presidência da República durante o primeiro mandato de Luis Inácio Lula da Silva. Militante estudantil durante a ditadura civil militar foi preso e exilado. De volta ao Brasil em 1974, participou da fundação dos jornais alternativos Movimento e Em Tempo. Trabalhou em vários jornais e revistas, entre elas a revista Ciência Hoje , da SBPC (Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência). Em 1997 ganhou o Prêmio Jabuti com o livro Jornalismo Econômico (1996), resultado de sua tese de livre docência e do pós-doutorado realizado em Londres. É autor de vários livros de reportagens e ensaios, muitos também publicados no exterior.

Neste seu primeiro romance, e com a linguagem contida e alusiva da literatura, B. Kucinski faz um relato emocionante de um tempo terrível. E faz um livro necessário e belo, o que não deixa de ser outra ironia. O pai, poeta premiado da língua iídiche, ao tentar fazer uma criação literária a partir desse "seu próprio infortúnio", não consegue. "Estava errado fazer da tragédia de sua filha objeto de criação literária", ele diz, ainda mais quando "foi por causa desse maldito iídiche que ele não viu o que estava se passando bem debaixo dos seus olhos, os estratagemas da filha para evitar que ele a visitasse, suas viagens repentinas sem dizer para onde". Mas se o pai abandona a literatura em iídiche, o filho agora a retoma, criando uma bela porque verdadeira, história do pai e da irmã. Em português, a língua desse infortúnio.

Maria José Silveira é escritora, antropóloga e cientista política, com mestrado na USP, é autora dos romances "O Fantasma de Luís Buñuel" (Francis), "Guerra no Coração do Cerrado" (Record) e "Com Esse Ódio e Esse Amor" (Global)

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