Catt Liu/Unsplash
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O pequeno grande problema da louça suja

Uma pia eternamente cheia de pratos sujos é uma imagem de tudo que há de tedioso e cansativo a respeito do cotidiano na ponta menos crítica da crise

Ellen McCarthy, The Washington Post

23 de maio de 2020 | 16h30

O mundo está um caos. A economia está ruindo. O noticiário é deprimente. As crianças não aguentam mais ficar em casa. Os pais precisam de uma folga. Todos estão cansados da vigilância necessária para evitar o vírus, que não se cansa. E sinto informar que a pia está cheia de louça suja. Outra vez.

Um efeito colateral do fato de agora fazermos as três refeições em casa (e os lanchinhos também), com os refeitórios das escolas e as cozinhas dos restaurantes não mais responsáveis por lidar com sua parcela das consequências imundas.

A louça é o menor dos nossos problemas. O menor deles. E é tão fácil de resolver: sabão, água, esfregar um pouco. Pensando bem, como ousamos lamentar essa tarefa tão simples diante de tudo que estamos vivendo? E como você ousa concordar com essa afirmação?

Ainda assim, uma pia eternamente cheia de pratos sujos é uma imagem de tudo que há de tedioso e cansativo a respeito do cotidiano na ponta menos crítica da crise. A louça é interminável, como a quarentena. A tarefa é repetitiva, como os dias que passamos em casa. É cansativa e suja, como os compromissos que preenchem essa rotina. E, de alguma forma, há ainda um elemento de vergonha e julgamento: quem pode dizer que está com a vida minimamente sob controle quando não dá nem para fazer a tostadeira caber sob a torneira?

É verdade que a louça suja é o menor dos nossos problemas. Mesmo assim, é um problema que evitamos até nos vermos tomando cereal no copo de requeijão com uma colher de café.

Talvez a soma dos demais problemas tenha tornado essa tarefa mais pesada. Foi assim que Benji Kaufman se sentiu. “Depois de cozinhar, temos que enfrentar as consequências de nossas ações nesse cotidiano. Lavar a louça não era o que tínhamos em mente", explica Kaufman, de 27 anos, ator e gerente de logística que mora em Burbank, Califórnia, com a namorada. Tempos atrás, houve uma época em que Kaufman e a namorada faziam duas ou três refeições juntos durante a semana. Agora são três refeições por dia, sete dias por semana. Vinte e uma refeições ao todo. E, depois de cada uma delas, restava a louça por lavar, uma tarefa que nunca parecia urgente. Afinal, eles não tinham mais para onde ir.

As coisas seguiram assim até o ponto em que não havia mais tigelas limpas para os humanos, nem para o gato ou o cachorro. Tiveram que carregar a máquina de lavar louça duas vezes para eliminar o acúmulo e, quando o processo chegou ao fim, mais pratos estavam sujos.

Inspirado pela agonia dessa derrota, Kaufman decidiu fazer um vídeo no TikTok a respeito do tema. O vídeo começa com Kaufman fechando a porta da lava-louça cheia. Então, quando olha para a pia, uma nova xícara apareceu. A cada vez que Kaufman olha para a pia, a louça suja se multiplica e o horror dee aumenta. Ao fim do clipe de 24 segundos, ele está debruçado na pia, chorando ao som de uma música do desenho animado Bob Esponja.

“Como posso controlar minha vida?" disse ele. “Não consigo controlar nem mesmo minha louça suja."

Mais ao norte, em Seattle, Gwendolyn Wood sente o drama de Kaufman. Gwendolyn, de 27 anos, é uma designer gráfica que se candidatava a lavar a louça suja antes da pandemia, como forma de dividir as tarefas com a colega de quarto, muito mais ordeira. Ela lavava a louça sempre na mesma hora, como um relógio. Então o namorado de Gwendolyn veio morar com elas, multiplicando a louça. Finalmente, a quarentena destruiu o ritmo da rotina deles e turbinou a tendência dela à procrastinação. “Bem, acontece que me distraí com o celular, e agora preciso trabalhar. Não dá tempo de lavar a louça.”

Agora a lógica de Gwendolyn para a hora de lavar a louça se inverteu: cuida apenas dos pratos e talheres necessários para a próxima refeição e, depois de comer, deixa a louça suja na pia até a hora da próxima refeição. A pia assumiu a função do armário.

Em uma aquarela que pintou recentemente, ela retratou o esforço necessário para se enfrentar outra pia cheia de louça. É uma versão do mito grego de Sísifo, condenado pelos deuses a passar a eternidade empurrando uma pedra montanha acima, que volta a rolar até a base e deve ser empurrada novamente. Na pintura de Gwendolyn, Sísifo não está empurrando uma pedra, mas um prato.

David Robertson, pai de cinco filhos e morador de Manitoba, Canadá, jura que em dois meses de reclusão não viu nenhum dos filhos abrir a máquina de lavar louça. É como se não entendessem para que serve. "Não importa o que eu diga", diz Robertson, um autor, “eles largam a louça suja no balcão ao lado da lava-louça".

Tão perto e tão longe. Talvez eles saibam que, ao abrir a lava-louça, corre-se o risco de encontrar uma das imagens mais assustadoras imagináveis: fileiras de pratos limpos que precisam ser guardados. Com isso, o desgaste dos pais e a resistência dos filhos se tornou um ciclo desgastante em si. Será que Robertson e a mulher começaram a se poupar?

Do outro lado da linha, ouço um profundo suspiro dos canadenses. “Não deixamos de tentar, mas, ao mesmo tempo, não temos esperança que alguma coisa mude", diz ele. “Realmente, não sei por que nos torturamos com isso."

E a família Robertson tem sorte, pois tem uma lava-louça. Afinal, em alguns lares, Sísifo possui uma caminhonete. Eles apertam o botão “iniciar ciclo” e podem ouvir os jatos de água ensaboada que parecem sussurrar, “Pode ir relaxar um pouco, eu cuido disso". Os demais precisam esfregar manualmente cada resto de queijo seco em cada prato, e depois brincar de Jenga com um escorredor do qual nada mais parece escorrer.

Não é uma missão gloriosa, mas pode trazer alguma sensação passageira de realização. Nossas vidas estão suspensas, mas ao menos aquele prato, reluzente e pronto para o uso, representa algum tipo de progresso. Uma tarefa a menos na lista. Um peso a menos nas costas.

Callum Grant, integrante do Blue Man Group e morador de Chicago, reuniu recentemente a coragem necessária para encarar uma pia cheia de louça e, em seguida, foi ao Twitter comemorar a façanha: "#COVID19 Como eu ajudei? Como contribuí para o bem maior? Quais foram os dolorosos sacrifícios que fiz? .... Lavei a #louça . . . de novo".

Kaufman talvez tenha inveja desse momento de orgulho, por mais que seja apenas sarcasmo.

Conversando pelo telefone às 17h30 de uma terça feira, ele relatou o estado atual da sua louça suja: “A pia está cheia. A lava-louça está cheia de pratos limpos que estão esperando ali há dois dias. Ainda não guardamos nada". Ele soube que há pessoas por aí que lavam os pratos imediatamente após o uso, guardando-os no devido lugar.

“Sempre que zeramos a pia, ambos dizemos, 'OK, de agora em diante, vamos enxaguar a louça imediatamente depois de usar e colocar tudo na máquina’”, conta Kaufman. Um pouco resignado, ele acrescenta, “Se isso acontecer um dia, entro em contato para informar”. / Tradução de Augusto Calil

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