O PEQUENO GRANDE NELSON

CD Ritos de Passagem traz registro antológico do prodígio, com apenas 12 anos

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2011 | 03h11

Ele era um menino de 12 para 13 anos, e o talento e a tenacidade, fruto da paixão pelo piano, prenunciavam um futuro estelar. Era 1957 e o tímido Nelson Freire, mesmo em nono lugar, foi destaque entre quase 50 competidores do 1.º Concurso Internacional de Piano do Rio, todos bem mais velhos do que ele, ao mostrar espantosa maturidade musical.

O sucesso na competição, realizada num apinhado Teatro Municipal do Rio, foi tamanho, que o garoto de Boa Esperança (MG) ganhou uma bolsa do presidente Juscelino Kubitschek para estudar na Áustria. Antes de partir, gravou num estúdio carioca seis peças de Chopin que havia apresentado no palco, começando com o Noturno n.º 7 em dó sustenido menor op. 27 n.º 1 e finalizando com o Scherzo n.º 1, em si menor, op. 20.

O registro foi vendido à época, mas se perdeu no tempo. Agora, a gravadora SanCtuS, especializada em repertório erudito e com foco em pérolas pouco conhecidas, brasileiras, como esta, e latino-americanas, o lança, tendo como faixa-bônus o Concerto Imperador, de Beethoven, de sua apresentação final, gravado ao vivo.

Chama-se Ritos de Passagem, pelo caráter determinante do concurso na carreira que o prodígio seguiria por toda a vida. A US$ 18,98 (menos de R$ 35), está à venda na Europa desde o mês passado. No Brasil, a versão importada está sendo distribuída a grandes redes (a edição brasileira sai em breve).

A gravação estava com Nelson, que a repassou a Betina Maag Santos, proprietária da SanCtuS. "A do concurso estava em péssimo estado, teve de ser trabalhada na Inglaterra. Tinha muito chiado e distorções, foi feita de modo amador", diz Betina.

O Imperador Nelson toca com a orquestra do Municipal. A gravação tem qualidade naturalmente bastante inferior à do padrão atual, mas vale como documento histórico. Ao fim, ouve-se a ovação do público. "Raríssimas vezes houve no Teatro Municipal tamanha consagração a um pianista. O jovem não resistiu ao choro e teve que voltar ao proscênio 12 vezes", descreve a reportagem de 57 que ilustra o CD.

"Ali já há o grande artista, você encontra as características do Nelson: a nobreza da interpretação, a riqueza sonora, a capacidade poética de exprimir uma ideia musical", comenta a pianista Gilda Oswaldo Cruz, sua amiga desde então, que assina o texto de apresentação.

De Paris, antes de embarcar para o Rio, onde toca amanhã, no mesmo palco - curiosamente, no encerramento do festival de piano que festejou jovens vencedores de competições internacionais recentes -, Nelson falou sobre o relançamento. "O concurso foi um divisor de águas na minha vida, um momento importantíssimo. Era a primeira vez que tinha contato com pianistas do mundo todo. Isso ficou como um tesouro para mim." E brincou quando indagado sobre a performance "infantil". "Não ouço o que fiz no passado, prefiro outros pianistas. Estou sempre comigo, para que me ouvir?"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.