O penúltimo afrancesado

Tenho poucos amigos esnobes, mas um deles é tão esnobe que, ao observar e ouvir com atenção uma pessoa incomum, ele a compara com um personagem de um romance, quase sempre francês.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

Outro dia, no intervalo de um encontro com leitores, esse amigo apontou para dois homens que não paravam de conversar em voz alta e me perguntou: o mais exibido e cínico não lembra o sobrinho de Rameau?

Fez essa pergunta em francês, com um sotaque pra lá de afetado, e depois traçou afinidades entre o falastrão cínico e o personagem de Diderot.

Ri da observação disparatada, mas não disse nem podia dizer nada, porque eu pensava numa viagem que tinha feito ao Alto Rio Negro em 1979, uma viagem mais próxima ao coração das trevas ou ao romance A Voragem do que à prosa francesa do século 18. Enquanto meu amigo falava em francês, eu me lembrava dos sons de línguas indígenas que tinha ouvido em São Gabriel da Cachoeira e da paisagem belíssima onde se situa essa cidade amazônica.

Acho que eu e meu amigo andávamos fora de prumo, porque eu me esforçava para recordar palavras indígenas, e ele não parava de falar sobre o sobrinho de Rameau e seu duplo brasileiro. Mas não estávamos nos arredores do Palais Royal, e sim num bairro humilde deste subúrbio do mundo. Disse a mim mesmo que esse meu amigo talvez fosse o penúltimo afrancesado desta América, e logo me lembrei de uma declaração de Jorge Luis Borges: na Buenos Aires dos anos 1930, quem não lia em francês era considerado analfabeto.

Claro que há um tremendo exagero nessa afirmação, que data da década de 1970. Mas quando o autor de Ficções acrescentou que as pessoas estudavam inglês para fazer negócios, e não para ler Shakespeare, penso que não exagerou nada.

Quando se fala da prosa de ficção do século 19 - a era dos grandes romances - é impossível não pensar nas obras russas e francesas. "A literatura quase infinita da França", disse Borges, que também escreveu ensaios notáveis sobre Marcel Schwob e Flaubert, entre outros franceses. Isso sem contar a alusão nada gratuita a poetas franceses nos contos do escritor argentino. Uma parte considerável da obra de Samuel Beckett - que em 1962 dividiu com Borges o prêmio Formentor - foi escrita em francês, num estilo que faz do autor irlandês um dos grandes escritores franceses do século 20. No passado e no presente, vários escritores trocaram sua língua materna pela francesa. O argentino Hector Bianciotti não foi o primeiro. O jovem romancista cubano Jaime Dobles de Altamor não será o último.

As observações de Borges parecem nostálgicas, mas na verdade são críticas, pois apontam para o domínio muito restrito da língua inglesa, usada para fins estritamente comerciais. Já a língua francesa, hoje pouco falada e lida na América Latina, tornou-se uma língua de cultura.

Meu amigo esnobe sonha com a inclusão da língua francesa na grade curricular do ensino público no Brasil. Ele ignora - ou finge ignorar - que muitos estudantes mal sabem ler e escrever no idioma vernáculo, e que o domínio deste é fundamental para a aprendizagem de uma língua estrangeira. Quando lhe disse que muitos brasileiros não sabiam a origem e o significado das palavras ipanema e tietê, ele me olhou com um ar pedante e disse: Se você continuar assim, vai acabar como aquela criatura pancada... O biruta do Barreto.

Biruta do Barreto?

Ele mesmo, disse meu amigo. Aquele sujeito louco, patético. Esqueci o nome dele.

Referia-se ao personagem Policarpo Quaresma. Tão transtornado. E tão brasileiro...

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