O pensador da imitação

Especialistas de vários países discutem, hoje e amanhã, a obra do filósofo francês René Girard, reunida em coleção

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2011 | 00h00

Dos clones de Michael Jackson aos confinados do Big Brother, o mundo contemporâneo anda tão cheio de imitações que algum filósofo tinha de se ocupar do fenômeno. Ele existe. Seu nome é René Girard. Nasceu na França em 1923 e, embora pouco conhecido no Brasil, é um pensador respeitadíssimo lá fora. Tanto que o investidor alemão Peter Andreas Thiel, gerente de um fundo de hedge e um dos primeiros a apostar no Facebook, banca a Fundação Imitatio, instituição americana que apoia projetos de investigação e divulgação da teoria mimética, criada por Girard há 50 anos ao lançar seu primeiro livro, Mentira Romântica e Verdade Romanesca, obra que inaugurou o catálogo do autor na Editora É Realizações. Para comemorar a data e com apoio da Imitatio, a editora abre hoje o seminário internacional René Girard: 50 Anos da Teoria Mimética. Até amanhã, 14 especialistas de vários países discutem a obra do filósofo no encontro, que está com ingressos esgotados. Os organizadores providenciaram a transmissão ao vivo do seminário pela internet (www.erealizacoes.com.br/renegirard).

Em parceria com a Fundação Imitatio a editora está lançando 60 livros de e sobre o imortal da Academia Francesa. Só este mês saem 15 títulos da Biblioteca René Girard, coordenada pelo professor João Cezar de Castro Rocha (leia texto abaixo) com projeto gráfico do veterano Alexandre Wollner. Metade da coleção chega às livrarias até o fim do ano. Entre os livros dos ensaístas que estudaram a obra de Girard destacam-se títulos de Michel Serres, Benoît Chantre e Jean-Pierre Dupuy. Entre os assinados só por Girard e selecionados por Castro Rocha estão O Sacrifício, Dostoievski: do Duplo à Unidade e A Conversão da Arte.

Os títulos traduzem o interesse de Girard tanto pela antropologia como a literatura. A função do sacrifício, no primeiro deles, é analisada como essencial para impedir a violência decorrente do desejo mimético. A vítima de O Sacrifício pode ser, indiferentemente, Cristo ou um líder político, arbitrariamente escolhidos para apaziguar a violência da comunidade e reconciliar o grupo, neutralizando o conflito gerado pela rivalidade mimética. A inveja, aliás, é a mola mestra das peças de Shakespeare, estudado por Girard em Teatro da Inveja (já lançado pela Editora É), livro fundamental que ilustra a teoria do desejo mimético por meio da rivalidade entre os personagens do bardo. Segundo Girard, eles não desejam o que é do outro por seu valor intrínseco, mas porque o objeto do desejo é cobiçado por mais pessoas. Eles apenas imitariam o desejo alheio.

Entre os temas explosivos que serão abordados nesses dois dias de seminário, os mais polêmicos dizem respeito, portanto, ao colapso do sujeito em nossa época, marcada pela ascensão do individualismo e a proliferação de seitas religiosas. Girard tem um livro polêmico incluído na coleção, Deus: Uma Invenção?, no qual o filósofo, um pastor e um teólogo protestante discutem a intervenção sobrenatural na preservação de sociedades, que se autodestruiriam se não encontrassem uma vítima, um bode expiatório, para linchar.

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