O penhor dessa igualdade

Diz a autoimagem brasileira que aqui não há racismo, que existe uma vocação para aceitar a diversidade que viria da mistura étnica que nos formou. Muito antes de Gilberto Freyre já se propagava essa ideia. Mas essa autoimagem não descreve nem o passado nem o presente da nação. A demora em abolir a escravidão e a demora em incorporar os negros e seus descendentes no progresso democrático, até hoje, põem por terra a afirmação de que a ausência da segregação explícita - vista até os anos 50 em países como os EUA - significa uma espécie de superioridade inerente. É fato que a mestiçagem evitou ou ajudou a evitar tais extremos, mas daí a achar que o gosto do colonizador português por mulheres negras e a índole cordial bastaram para criar uma sociedade livre de racismo, vai atlântica diferença.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2011 | 00h00

Quando ouço as declarações desse deputado Jair Bolsonaro sobre a "promiscuidade" que seria ter uma mulher negra, para não falar do pastor evangélico que escreveu que a herança africana é "maldição", estou ciente de que eles não refletem a maioria dos brasileiros. Mas não subestimo quantos não pensam ou dizem às escondidas a mesma coisa, e fico indignado quando vejo o modo como os ricos e as autoridades deste país tratam seus empregados, não raro de pele mais escura que a sua. Mais importante ainda, não esqueço que algumas instituições brasileiras, sobretudo a polícia, são eivadas desse preconceito. E lembro como são poucos os negros na "elite" brasileira, os Obamas e as Oprahs, e em algumas profissões, como os garçons.

Ok, o deputado tem o direito de dizer o que pensa, mas nós temos o dever de criticá-lo. E quando ele diz coisas como a de que não teria um filho gay porque sabe como "educá-lo" está indo muito além de uma mera discordância sobre a união civil para casal homossexual; está dizendo que acha que essas pessoas são mal-educadas e, logo, são aberrações que merecem corretivo, para usar termos a seu estilo. E então sabemos de gays que são agredidos criminosamente na Avenida Paulista e nada ouvimos em sua defesa por parte do deputado, cuja obrigação é zelar pelas leis. Para piorar, ele tenta escapar da acusação de falta de decoro e incitação ao ódio usando o mais velho expediente dos preconceituosos, o de ter amigos ou parentes negros ou gays.

Essa história de que os brasileiros são afetuosos e, portanto, não discriminam etnias e sexualidades também está demorando para acabar. Afinal, este país é o campeão mundial de violência doméstica contra as mulheres. Rodo por todos seus pontos cardeais e me canso de ver mães solteiras, muito jovens, que algum malandro engravidou e depois abandonou. Não, a sociedade brasileira está longe de ser um exemplo de harmonia entre as diferenças; sob a capa do sorriso fácil, do tapinha nas costas, muitos vezes há a mais cruel deslealdade, a mais velada arrogância. Só merece afeto quem antes cultiva o respeito.

Rodapé. Fui com grande expectativa ler Claudio Manuel da Costa, de Laura de Mello e Souza (Companhia das Letras), de uma coleção chamada "perfis brasileiros". Sou fascinado pela Vila Rica do século 18, uma cidade onde a cobiça por ouro e a construção de igrejas competiam e onde a arquitetura barroca e a poesia árcade coexistiam. Esse material que mistura sagrado e profano e envolve dois dos maiores mitos brasileiros, Aleijadinho e Tiradentes (você já notou como pouco se fala de um quando se fala do outro? No entanto, eles caminharam pelas mesmas ladeiras e largos), daria grandes livros, de ficção ou de história. Mas muito pouco se vê disso tudo.

Como em outros títulos da coleção, há uma noção de que um perfil é uma biografia convencional compacta, ou seja, uma narrativa cronológica e detalhista, em vez de um recorte, um olhar transversal por esses dados a partir de um ângulo específico. O que temos é um relato de como Claudio Manuel da Costa vivia e agia; os melhores momentos mostram seu conservadorismo, seu apego à religião e ao status, o estilo anacrônico de sua poesia. Mas sabemos pouco sobre seu pensamento, e sua participação na Inconfidência Mineira - que termina de forma covarde, delatando os amigos mais radicais, como Gonzaga e Tiradentes - é descrita apenas no quinto final do livro.

Mesmo assim, percebemos de novo que a Inconfidência, transformada em lenda depois da Proclamação da República um século mais tarde, foi muito menos um movimento liberal do que um descontentamento colonial.

Miniconto. Olhava para seu filho, para a beleza e a espontaneidade e a alegria de seu filho, e pensava em como aquele momento lhe fazia bem, o enchia de um encanto simples, deixava de fora todas as chatices da vida prática. Pensou, sem dizer a ninguém: "Como seria bom se ele fosse sempre assim, se o tempo parasse para ele e o conservasse nessa fase tão especial". Foi dormir.

Os dias se passaram, os meses, os anos. Sim, foi preciso que anos se passassem até que percebesse: o menino não crescia mais. Era sempre o mesmo, saudável, feliz, aprendendo e ensinando todo dia. Mas era sempre o mesmo. Os outros foram ficando mais altos, mais safos, mais fortes. E ele, seu pai, ganhava cabelos brancos, vincos na pele, dores nas costas; já parecia mais seu avô.

O menino, numa certa manhã, se deu conta do que acontecia. Perguntou ao pai, pois a mãe não estava. O pai não soube explicar. O menino se olhou no espelho e viu seu desespero. Perdeu o fôlego, franziu a testa e começou a chorar, cada vez mais, e pelo rosto enrugado do pai lágrimas desceram. Nesse instante, sentiu um toque na pálpebra: era o dedo do filho que o acordava, abrindo seus olhos e dizendo: "Vamos, pai, tá na hora de me levar pra escola".

De la musique. Quem já assistiu com as crianças A Pequena Sereia já reparou que a bruxa, Úrsula, tem as melhores canções e que sua voz na versão brasileira impressiona ("Corações infelizes/ Precisam/ De mim"). Pois aquela voz é de Zezé Motta, a atriz, a eterna Xica da Silva, que antes já tínhamos escutado em parcerias com Chico Buarque e Caetano Veloso. Agora recebo o novo CD seu, Negra Melodia, interpretando canções de Jards Macalé e Luiz Melodia. É um acontecimento especial. As músicas de um lado soam "vintage", como se diz hoje, com toques de bolero e samba-canção; do outro, têm um jeito moderno, vanguarda, em suas harmonias e ironias. Zezé, com uma tessitura ampla e muito senso rítmico, é perfeita para captar isso; vai do canto-falado ao registro lírico, jamais perdendo o andamento. Destaco Soluços, de Macalé, em que essas qualidades se reúnem numa linda melodia de forte levada.

Uma lágrima (1). Para Thomaz Farkas, grande fotógrafo brasileiro de origem húngara. Ele pertenceu a uma geração que modernizou a fotografia nacional, ao lado de Geraldo de Barros e German Lorca, e captou São Paulo como ninguém em sua época, por causa de seu olhar para a geometria das sombras e as solidões da metrópole (como se pode ver em retrospectiva em cartaz no Instituto Moreira Salles). Sem ele não haveria hoje Cristiano Mascaro, Juan Esteves e tantos outros fotógrafos urbanos. Como se não bastasse, teve papel importante nos documentários, como um que vi, de 1954, em que mostrava Pixinguinha, Benedito Lacerda e banda no Parque do Ibirapuera.

Uma lágrima (2). O Brasil lamentou muito a morte do ex-vice-presidente José Alencar, aos 79 anos. O empresário mineiro que lutou com bravura contra a doença foi também um crítico constante dos juros altos e destoou da classe empresarial ao apoiar Luis Inácio Lula da Silva. Ao lado de Duda Mendonça e Antonio Palocci, foi um dos principais fatores para a vitória de Lula nas eleições de 2002, simbolizando uma aliança de capital e trabalho. Eu queria saber mais sobre os bastidores dessa história, mas o fato é que ela mudou tudo; sem ela não teria havido a "carta ao povo" em junho daquele ano e o compromisso com os contratos e mercados, metas de inflação, etc. Pena que sua batalha verbal contra os juros altos não tenha herdeiro de porte equivalente no governo Dilma.

Por que não me ufano (1). Fui na terça para o Rio, como tenho ido todas as semanas há algum tempo, e, enquanto lia nos jornais a declaração de Joseph Blatter sobre o inegável atraso dos estádios brasileiros (descontada a possível motivação política envolvida nas eleições da Fifa), não consegui deixar de pensar em outros e talvez maiores problemas, a começar pelos aeroportos. Em Congonhas, está claro que outro terminal de embarque é urgente. Os "fingers" não dão conta e hoje fomos de ônibus até o outro extremo da área. As filas nos detectores de metal só fazem aumentar. Em consequência, os atrasos: decolamos quase 20 minutos depois do previsto. Some a isso outros diversos problemas de transporte, como o congestionamento que o Rio parece sofrer cada vez mais, com apenas uma estação de metrô para a Barra em construção. Teremos uma Copa de improvisos.

Por que não me ufano (2). Gilberto Kassab declarou à rádio Estadão ESPN que seu novo partido, PSD, "não será nem de direita, nem de esquerda, nem de centro". Ou seja, é um partido que não toma partido, salvo o próprio.

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