O penetra na festa dos emergentes

No prefácio de seu livro Luxury, registro da exposição homônima sobre o (mau) gosto dos emergentes - que chega em outubro à Galeria de Babel, em São Paulo, como parte do Fórum Latino-Americano de Fotografia -, o fotógrafo inglês Martin Parr diz ao estilista Paul Smith que gosta de criar ficção com a realidade. Isso explica em parte a atração que os fotorretratos pintados pelos bonequeiros nordestinos exercem sobre ele, mas não o propósito satírico de Parr. Conhecido por sua ironia, ele se justifica dizendo que usa justamente os preconceitos da sociedade para devolver a ela a imagem que rejeita. Luxury, segundo a crítica inglesa, é o epitáfio de nossa era de consumo desenfreado, particularmente dos países emergentes.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

Globetrotter, Parr viajou por vários lugares, do Ocidente ao Oriente, para documentar o estilo de vida de novos-ricos. De Dubai a Moscou, de Pequim a Délhi, nada escapou ao olho selvagem do inglês: festas regadas a champanhe, corridas de cavalo, feiras de arte e lançamentos de carros de luxo reúnem personagens extravagantes ostentando gigantescos anéis de diamantes e implantes dentários que brilham tanto quanto suas joias. A perspectiva de Parr, disse o crítico Neal Brown, "é a de uma mosca" sobrevoando cabeças de novos-ricos, cuja miséria estética só concorre com a espiritual.

"Tradicionalmente, o retrato da pobreza tem sido o domínio dos fotógrafos engajados, mas eu fotografo o luxo com o mesmo espírito", explica Parr, não sem uma dose rabelaisiana de sarcasmo. Essas são, de fato, fotos documentais, mas a acidez com que ele registra as imagens não pode ser facilmente escondida. Quando Parr fez a série The Last Resort (1986), dedicada a investigar o lazer e o estilo de vida da classe operária inglesa, muitos críticos, chocados com o impiedoso olhar do fotógrafo, acusaram o profissional da Magnum de manipular a realidade, ao saturar a paleta com cores berrantes. Em defesa de Parr é lícito evocar essas mesmas imagens de gente imbecilizada pelo consumo de junkie food, prova evidente de que não foi ele o inventor de todo esse horror.

A revista Artnews, a esse respeito, observou que os filmes de Martin Parr revelam que suas intenções não são tão diabólicas como dizem seus detratores. O estilo de vida da classe média inglesa, objeto principal de estudo do fotógrafo no média-metragem Think of England (1999), é registrado no filme de forma crítica, porém não exatamente agressiva. Estão lá os discursos racistas da classe média, o riso falso dos emergentes, a pose das senhoras de chapéus nas festas ao ar livre, os punks. No entanto, Parr evita o julgamento sumário do que vê. Não posa de superior - até mesmo porque ele gosta de roupas extravagantes e já dirigiu vídeos do Pet Shop Boys. Simpatiza com eles, mergulha com gosto no kitsch, celebrando a chamada "baixa cultura" como se estivesse diante de uma tela renascentista. Se ele satura as cores para reforçar o que já é escandaloso por si, não se deve culpá-lo. É apenas uma tentativa bem-humorada de dar à pobreza estética alguma dignidade.

Parr sempre insiste que não explora o próximo, embora admita que toda foto envolvendo pessoas tem um elemento de exploração. "Não sou uma exceção, mas seria triste que os fotógrafos não pudessem registrar imagens em lugares públicos." Bem, pelo menos por enquanto eles estão liberados. Parr aproveita o intermezzo para ficar de olho. Pensa em sua profissão como se fosse o diretor de uma telenovela à espera do elenco certo. E ele sempre vem cheio de populares. Parr não se deslumbra com rostos facilmente reconhecíveis. Nem é tão amoroso como Cartier-Bresson, o fundador da Magnum, agência para a qual trabalha. Bresson, que sempre dirigia a seus modelos um olhar cúmplice, tinha uma opinião estranha sobre seu colega inglês. Achava que Parr era de outro planeta. Ou, pelo menos, disse isso em 1995, ao conhecer seu trabalho.

De fato, numa primeira visão, essas fotos parecem exageradas, montadas, algo bizarras por causa das suas cores lisérgicas e perspectiva insólita. Parecem peças publicitárias subvertidas - e são tão acessíveis quanto. Sua estratégia é apresentar o horror estético em embalagem de luxo. Se The Last Resort reúne a estética do lazer operário em New Brighton, seu livro Playas é uma viagem camp pelas areias de 20 praias da América Latina em busca de corpos assados pelo sol e cobertos por sumários maiôs que seguram quilos de celulite. Há, claro, algumas beldades, mas predominam o barrigão de chope e o traseiro sedentário.

Em suas viagens pelo mundo, Martin Parr sai em busca não só de tipos incomuns, mas de fotógrafos capazes de captá-los. Um deles é a brasileira Rosângela Rennó, citada na página anterior, que o inglês selecionou para a quarta edição da Bienal de Fotografia de Brighton, com início em 2 de outubro. Ele vai mostrar a mesma instalação exibida por ela recentemente na Galeria Vermelho, de São Paulo, que traz fotopintores do sertão do Cariri, no Ceará. A mostra inglesa, chamada New Documents, vai até novembro e reúne fotógrafos dos quatro continentes.

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