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O Pedro, que já foi pedreiro

Pedro, que já foi pedreiro, quer colocar as manguinhas de fora, sentir a agulha, a picadinha e o algodão umedecido no braço

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2020 | 03h00

O Pedro, que já foi pedreiro, não espera mais o trem. Aposentou-se, juntou um pequeno pé-de-meia, mandou os filhos para a faculdade e sonhou uma velhice de paz.

O Pedro, que já foi pedreiro, sempre teve saúde de ferro. Um touro, como dizem por aí. O corpo dele, creiam, não foi moldado no bate-estaca das academias, mas forjado na lida, no leva e traz dos carrinhos transbordantes de entulho.

O Pedro, que já foi pedreiro, está em casa desde o início da pandemia. Idade avançada, grupo de risco, levou muita bronca dos meninos para se aquietar. 

Aquietou-se, pois. 

Atrapalhado com a máscara, evitou até as farmácias e os supermercados. Aprendeu a usar os aplicativos, a esperar o entregador de bike e o motoqueiro do delivery. 

Mas o Pedro, que já foi pedreiro, também é penseiro. E, ao assistir à cena da idosa tomando a vacina contra a covid na Inglaterra, teve lá suas epifanias.

Primeiro: que coroa linda. 

Margaret Keenan, 90 anos, levantando um pouco a manga da camiseta, com uma calma e elegância que só quem já bebeu muito gim sabe ter.

Margaret Keenan tão viva, com aquele cabelo amarelo-chá, curtido pelo tempo e pela sabedoria.

Margaret Keenan, que fez o Pedro, que já foi pedreiro, chorar ao reparar na camiseta que ela usava – estampada com um simpático pinguim fantasiado de Noel. 

O Pedro, que já foi pedreiro, anda muito sensível. Ao assistir à britânica sendo vacinada, perguntou-se: “E eu?”. 

Se Pedro, que já foi pedreiro, conhecesse a palavra déjà vu, aposto que a usaria para explicar o sentimento de esperar mais uma vez. 

Eis aqui o Pedro penseiro esperando a vacina. Esperando, esperando, esperando. Esperando a Anvisa, os mistérios da logística, o presidente negacionista e todas as curvas da política. Quem dera esperasse um trem cheio delas, das vacinas, qualquer uma, mesmo as da Cochinchina.

Pedro, que já foi pedreiro, quer colocar as manguinhas de fora, sentir a agulha, a picadinha e o algodão umedecido no braço. Pedro, que já foi pedreiro, quer ouvir uma voz suave perguntando: “doeu?”.

Quando alguém pergunta para outra pessoa se “doeu”, chegamos mais perto de Deus. Ou da ideia de Deus.

O Pedro, que já foi pedreiro, está cansado. Até quando esperar? 

P.S. Desculpa, Chico Buarque.

É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’ E OBSERVADOR DA VIDA URBANA

 

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