O pecado morava na "Casa de Eny"

Não foi Eny Cezarino quem levou o pecado a Bauru, no interior de São Paulo. Mas foi ela quem fez do prazer proibido uma inesquecível referência da cidade ao instalar lá seu grande bordel. O jornalista Lucius de Mello chegou na cidade em 1988, um ano depois da morte de Eny. Apesar de ter nascido em Bariri, município próximo, Lucius pouco conhecia sobre a vida da famosa cortesã das décadas de 50 e 60.Mas como não raro acontece, depois de morta Eny tornou-se uma lenda. Os comentários sobre ela não tinham mais a vergonha e o preconceito de antes, e sua história logo chegou aos ouvidos do curioso repórter.Lucius de Mello queria saber mais sobre a vida da tal mulher, e partiu em busca de parentes, amigos, conhecidos ? enfim, começou um intenso trabalho de pesquisa que depois de dez anos deu origem ao livro Eny e o Grande Bordel Brasileiro, que o jornalista lança pela Editora Objetiva.Templo de políticos e celebridades - Nunca houve um cabaré como a Casa de Eny. Em seus 15 mil metros quadrados, instalados bem na entrada da cidade, o bordel era um templo de homens de negócios, políticos e celebridades. A cafetina não media esforços para oferecer o melhor aos seus clientes ? o bordel tinha 40 quartos, sauna, piscina, bares e as mulheres mais bonitas da região ?, mas o maior de seus atrativos era a discrição.Passagens secretas e entradas exclusivas eram algumas de suas táticas para manter os freqüentadores protegidos e à vontade. Tanto que, até hoje, há muitos boatos não confirmados de clientes do bordel ? dizem até que o cantor Roberto Carlos costumava visitar Eny e suas meninas.Eny era uma mulher poderosa. Um de seus melhores amigos era o deputado Nicola Avalone Junior, o Nicolinha, que a apresentava para muitos políticos e que lhe dava proteção. Paulistana, Eny Cezarino trabalhou em bordéis do Rio de Janeiro e de Porto Alegre antes de mudar-se para Bauru por recomendações médicas ? ela sofria de uma grave bronquite e precisava de ares puros.Logo que chegou à cidade, Eny foi bater na porta de dona Angelina, dona do Cabaret Maxim, até então o mais famoso de Bauru. Lá ela conheceu também uma grande amiga, a Sinhá das Jóias, uma cantora de ópera paulistana culta e viajada que se instalou em Bauru a pedido do amante, diretor de um importante hospital da cidade.Eny cresceu sozinha, conquistou poder, fama e acumulou grande fortuna. Na fase de maior sucesso, ela chegou a ter 20 imóveis em seu nome. Apesar disso, Eny morreu pobre em uma cama de hospital. Dizem que as causas de sua falência foram um golpe dado por um contador, o surgimento dos motéis e a chegada dos novos tempos, quando sexo deixou de ser sinônimo de pecado.Tal mudança de tempos é lembrada pelo dramaturgo Mauro Rasi, que é de Bauru e assina a orelha do livro. Ele lembra que, quando pequeno, a "sacanagem" era uma referência à cidade quase tão famosa quanto o sanduíche.Lucius de Mello optou por romancear a história de Eny em vez de fazer uma biografia, porque muitas das pessoas com quem ele falou pediram anonimato. O livro começa com Eny à beira da morte e sua vida vai sendo lembrada na forma de flashbacks.Apesar de contar a história de uma cafetina e de seu bordel, o autor evitou descrever cenas picantes para não cair no clichê bordel/sexo. "E também para deixar os leitores usarem a imaginação. Essa é a graça da literatura."Eny e o Grande Bordel é o primeiro romance do jornalista ? que trabalhou 14 anos na Rede Globo, na qual fez reportagen especiais que lhe renderam dois prêmios Líbero Badaró ?, e conta com um generoso prefácio do jornalista e escritor Fernando Morais.Eny e o Grande Bordel Brasileiro, Ed. Objetiva, 256 págs, R$ 33,90.

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