O pastel para a criança que não nasceu

Dirce acariciava a barriga e sorria. Morena, quase mulata, de dentes brancos, todo seu rosto brilhava. Sábado de sol, a feira da rua fervia. Ou, como dizem no interior, era um fervo só. Dirce e sua amiga Juliana estavam indecisas diante da barraca de pastel. Carne, queijo, frango com catupiri, pizza, palmito ou o especial, um pastel imenso que vale por um almoço e leva tudo dentro, carne, azeitonas, ovo. Dirce comentou: "Se pudesse, comia todos. Quando passo pela barraca, minha filhinha chuta a barriga, deve sentir o cheiro". Transferia para a filha os desejos dela, grávida.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2012 | 03h07

- É para quando? - perguntou o senhor que tomava caldo de cana, apoiado numa bengala envernizada, antiga.

Nas feiras, os caldos são gelados, muito doces, devem elevar as taxas de glicemia aos céus. Como resistir a um pastel de feira e um copo de garapa, como dizem os caipiras? Garapa com limão ou abacaxi. Irresistível.

- Para daqui a dois meses, respondeu Dirce com um sorriso maior ainda. Estava curtindo, não parava de acariciar a barriga.

Dirce era conhecida minha, tinha estudado na Unesp em Araraquara, aluna de Eleieth Saffioti, socióloga e feminista ferrenha, boa gente. O marido de Dirce era bibliotecário e conhecido por emprestar livros a todo mundo. "Devolvem, Pancho?", indagavam aqueles preocupados com a "posse" de livros que acabam ficando parados nas estantes. "Devolvem, para poder levar outros", explicava Pancho, sem preocupação.

Dirce comeu seu pastel de palmito e olhava ainda com gula para um de carne. Carne com pimenta, delícia. Ah, se te pego, pensava. O senhor da bengala percebeu a intenção.

- Posso te oferecer um pastel?

- Me oferecer?

- Vi que está com vontade. Deve comer. Se não, pense só com que cara a criança vai nascer.

- Não acredito nessas coisas! Acho que não devo comer outro, estou fora do peso.

- Então, leve um para a criança. Ela já ganhou muito presente?

- Bastante.

- Mas ninguém ainda deu um pastel para ela. Deu?

- Não, claro que não.

- Quero ser o primeiro a dar um pastel. Para que ela saiba como é bom.

Dirce riu muito, achou a ideia original. Só que a criança nasceria em dois meses. Como guardar o pastel? No freezer? Não importa, o velho já estava pedindo ao barraqueiro que suava em bicas diante da imensa frigideira de óleo fervente:

- Me dê um de queijo.

- Tudo bem, vou levar para Maristela.

- Vai se chamar Maristela? Pois leve o pastelzinho e diga que foi presente do Floriano, o amolador de facas e tesouras, aposentado.

Mal entregou o pastel a Dirce, seu Floriano caiu. O coração parou de repente, infarto fulminante. "Tinha 97 anos", disse o barraqueiro, "e nunca deixou de vir comer meu pastel. Sempre presenteava uma criança com um, fazia bem a ele. Deve ter morrido feliz, imagine, dar um pastel a uma criança que ainda não nasceu!" Depois que o resgate levou seu Floriano, Dirce e Juliana passaram no vidraceiro, explicaram a situação e pediram:

- Encontre um modo de emoldurar este pastel.

Maristela tem hoje 8 anos e no seu quarto, numa estante, há uma caixinha vedada por um processo a vácuo, de maneira que o pastel parece fresco como naquela manhã de sábado. Dirce redigiu um letreirinho contando a história. É uma sensação. Único detalhe: Maristela detesta pastel. Comeu um, uma vez, e nunca mais.

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