O passado tecido na obsessão

Cartas de Abril para Júlia, de Álvaro Alves de Faria, revisita os limites ibéricos

Moacir Amâncio, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2011 | 00h00

O poeta paulistano Álvaro Alves de Faria, autor de dezenas de livros escritos ao longo de uma carreira que se estende por quatro décadas, tem uma obra que está à espera de releitura e revisão crítica, pela variedade dessa presença em diversos momentos da história deste país. Nos últimos anos essa obra deu uma guinada que embora talvez não fosse tão imprevisível, de outro lado não deixa de ser surpreendente. Filho de portugueses, Faria começou a publicar e a escrever em Portugal, dando início a uma nova etapa em sua obra que até então era plantada em terras brasileiras e paulistanas. Tornou-se por direito e fato um autor binacional, numa situação que não se explica apenas pelo idioma falado aqui e do outro lado do Atlântico.

Neste novo livro, Cartas de Abril para Júlia, que saiu primeiro em Portugal, o autor abre-se para o passado ibérico, também comum, e por terras de Espanha campeia em busca de mitos literários que transcendem tempo e espaço e, com isso, instala-se no panorama além dos limites linguísticos e das ficções dos estados nacionais, como observa oportuno e contemporâneo estudo da professora lusa Graça Capinha (Universidade de Coimbra) publicado no fim do volume. Trata-se de uma prosa poética, e isso confere ao escritor a liberdade ampla de dispensar convenções narrativas que permitiriam enquadrá-la em algum gênero de maneira cômoda e acomodada. Um livro para ser interpretado como é, atual em seu anacronismo e que se retoma a cada capítulo, a pelejar a eterna batalha de um Quixote às voltas com o impossível: a recuperação de um passado que não existiu mas se projeta de maneira simbólica no desejo pela mulher inatingível em sua fulguração tantalizante.

Em vez da distensão narrativa, Faria preferiu o monólogo tenso da obsessão que não se reduz a um mote, embora perpétuo. Torna-se porém um sumário de interrogações acerca da existência e suas circunstâncias, que persistem desde os tempos de Cervantes, o grande anunciador dos tempos futuros, do mundo feito linguagem que sempre volta. E a linguagem retomada será sempre e inelutavelmente a do outro, o idioma como espaço intransponível. Diversas vezes premiado, Faria já escreveu sobre fatos da hora, sua poesia paulistana pulsa com a cidade, entretanto estamos neste outro momento bem mais interessante e cabe aos artistas, antes de mais nada, perceber o que se passa de manifesto e oculto. A ocasião faz o ladrão e o poeta.

MOACIR AMÂNCIO É PROFESSOR DE LITERATURA DA USP E AUTOR DE ATA (RECORD) E YONA

E O ANDRÓGINO - NOTAS SOBRE POESIA E CABALA (NANKIN/EDUSP)

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