O passado sem a ligeireza de hoje

Carlos Guilherme Mota examina história e vida intelectual brasileira entre os anos 1970 e 2007

Elias Thomé Saliba, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

Seduzidos pela velocidade das mudanças no século 21, cada vez mais proclamamos a novidade e desmentimos a continuidade. É espantosa a ligeireza e a superficialidade comemorativa com que tratamos a história do século 20. Para combater tal marasmo, chega até nós História e Contra-História, uma reunião dos mais importantes ensaios do historiador Carlos Guilherme Mota. Escritos entre 1973 e 2007 e cobrindo quase quatro décadas de história, revelam não apenas a trajetória do historiador como também pontuam momentos importantes da vida intelectual brasileira.

O primeiro ensaio, "Os fazendeiros do ar", é uma resposta às críticas de Sérgio Buarque de Holanda - em artigo de 1973 -, no qual Mota já ensaia uma modalidade de analise da ideologia da cultura brasileira que marcaria toda a sua obra posterior. Apesar de datado - e do cipoal de intrigas acadêmicas que provocou - só hoje percebemos o quanto aquele debate já antecipava uma questão atualmente crucial para os historiadores: qual a escrita da história mais capaz de transmitir a complexidade do passado brasileiro? De qualquer forma, a reedição do ensaio é importante para o leitor entender a polêmica por completo, pois o artigo de Sérgio Buarque ("Sobre uma doença infantil da historiografia") já havia sido reeditado em 2004, sem a respectiva "resposta" de Mota.

Na própria escolha de vertentes já percorridas por alguns "clássicos preteridos", os ensaios seguintes revelam a construção de uma instigante crítica da cultura brasileira, identificando seus velados conteúdos senhoriais e conciliadores que encobriam as lutas sociais, falseavam rupturas, escamoteavam conflitos e contribuíam para perpetuar as enormes desigualdades do País. Lá estão os iluminadores ensaios de Mota sobre Oliveira Lima, Florestan Fernandes, José Honório Rodrigues, Antonio Candido, Sérgio Milliet, Darcy Ribeiro e, claro, Raymundo Faoro. Mota não se furta nem mesmo a orientar a leitura de Os Donos do Poder - sugerindo começar pelo capítulo final deste "clássico", ainda hoje quase desconhecido, cujo título foi sugerido a Faoro por Erico Verissimo. "Leia todo o último capítulo... mas é uma leitura que deve ser feita com o coração leve", recomenda Mota. Ganha o leitor que, sem perder o prazer da leitura, pode surpreender-se com uma atualíssima interpretação do Brasil.

A maioria dos intérpretes escolhidos por Mota trilharam vertentes singulares, não aderindo nem ao marxismo simplificador - com suas explicações lineares e mecanicistas - nem aos engodos sutis do pensamento liberal nativo, com sua vocação para harmonizar conflitos político-culturais. Para tais intérpretes, a "história dos excluídos" nunca foi apenas clichê de retórica ou simples modismo, mas o resultado de sofisticada pesquisa empírica.

Mota não esconde sua admiração pelas viradas constantes e "rotações de perspectivas" de intelectuais de todos os tempos. Ela transparece nos seus importantes ensaios sobre o pouco conhecido livro do português Sampaio Bruno, O Brasil Mental, de 1891; ou a releitura da obra de Oliveira Lima, o nosso "D.Quixote Gordo", como lhe chamava Gilberto Freyre. Mota relembra ainda a obra do historiador inglês Charles Boxer, uma das primeiras a lançar dúvidas bem documentadas sobre a democracia racial "no mundo que o português criou". Obra, aliás, que encabeçou a lista de livros censurados em Portugal pela ditadura salazarista após 1974: depois dos livros de Boxer, vinham listados Flaubert, Victor Hugo, Marx, Bertrand Russel, Castro Alves, Nelson Rodrigues - além de brochuras como Piadas de Antanho e Frescas e Collectanea Humorística. Na salada da censura salazarista, até rir sozinho era proibido.

Se hoje é certo que a crítica de Mota aos "explicadores" do Brasil, distinguindo entre os "ideólogos" e os "críticos" da cultura, perdeu um pouco do sentido forte que possuía em décadas passadas, ela ainda é antídoto para a dificuldade, cada vez maior, que temos de ver o passado de uma forma global, fora de nossos interesses imediatos e identidades presentes. Mota parece recomendar uma sutil rotação de perspectivas. E para retomar a crítica da cultura, talvez seja necessário que o historiador se distancie das perigosas tentações da "identidade". Historiador cujo perfil ideal, já dizia Hobsbawm, "não pode ser o carvalho ou o cedro, por mais majestosos que sejam, e sim o pássaro migratório, igualmente à vontade no ártico e no trópico - e que sobrevoa ao menos a metade do mundo".

ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR TITULAR DE TEORIA DA HISTÓRIA NA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE RAÍZES DO RISO (COMPANHIA DAS LETRAS)

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