O passado imperfeito

Acaba de sair nos Estados Unidos um livro de Tony Judt, publicado pela primeira vez em 1992 e que eu não conhecia: Past Imperfect: French Intellectuals, 1944-1956. O livro me impressionou muito porque vivi na França cerca de sete anos, num período, 1950-1966, ainda impregnado pela atmosfera e pelos preconceitos, acrobacias e desvarios ideológicos que o grande historiador britânico descreve em seu ensaio com tanta severidade e erudição.

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2014 | 02h06

O livro quer responder à pergunta: por que, nos anos do pós-guerra europeu e mais ou menos até meados da década de 60, os intelectuais franceses, de Louis Aragon a Sartre, de Emmanuel Mounier a Paul Éluard, de Julien Benda a Simone de Beauvoir, de Claude Bourdet a Jean-Marie Doménach, de Maurice Merleau-Ponty a Pierre Emmanuel, etc., foram pró-soviéticos, marxistas e companheiros de viagem do comunismo? Por que foram os últimos escritores e pensadores europeus a reconhecer a existência do Gulag, a injustiça brutal dos processos stalinistas em Praga, Budapeste, Varsóvia e Moscou, que mandaram para o paredão comprovados revolucionários? Evidentemente, houve exceções ilustres, Albert Camus, Raymond Aron, François Mauriac, André Breton, entre elas, mas escassas e pouco influentes num meio cultural no qual as opiniões e tomadas de posição dos primeiros prevaleciam de maneira avassaladora.

Judt desenha um afresco de grande rigor e amenidade do renascer da vida cultural na França após a libertação, uma época em que o debate político impregna todo trabalho filosófico, literário e artístico, e abraça os meios acadêmicos, os cafés literários e revistas como Les Temps Modernes, Esprit, Les Lettres Françaises ou Témoignage Chrétien, que passam de mão em mão e alcançam notáveis tiragens. Comunistas ou socialistas, existencialistas ou cristãos de esquerda, seus colaboradores divergem a respeito de muitas coisas, mas o denominador comum é um anti-norte-americanismo sistemático, a convicção de que, entre Washington e Moscou, aquele representa a incultura, a injustiça, o imperialismo e a exploração, e este o progresso, a igualdade, o fim da luta de classes e a verdadeira fraternidade. Nem todos chegam aos extremos de Sartre, que, em 1954, após sua primeira viagem à URSS, afirma, sem a menor vergonha: "O cidadão soviético é completamente livre para criticar o sistema".

Nem sempre se trata de uma cegueira voluntária, derivada da ignorância ou da mera ingenuidade. Tony Judt mostra que ser um aliado dos comunistas era a melhor maneira de limpar um passado contaminado pela colaboração com o regime de Vichy. É o caso, por exemplo, do filósofo cristão Emmanuel Mounier e de alguns dos seus colaboradores da revista Esprit, que, no início da ocupação, foram seduzidos pelo chamado experimento de nacionalismo cultural Uriage, patrocinado pelo governo, até que, advertidos de que era manipulado pelas forças nazistas, se afastaram dele. E eu lembro que, no início dos anos 60, diante de manifestantes universitários que queriam impedir que Sartre falasse, André Malraux respondeu: "Sartre? Conheço. Ele conseguia que suas obras de teatro fossem representadas em Paris com a aprovação da censura alemã, enquanto eu era torturado pela Gestapo".

Tony Judt diz que, além da necessidade de fazer com que um passado politicamente impuro fosse esquecido, por trás do esquerdismo dogmático desses intelectuais havia um complexo de inferioridade do ambiente intelectual, pela facilidade com que a França se rendeu diante dos nazistas e aceitou o regime fantoche do marechal Pétain, e foi libertada de maneira decisiva pelas forças aliadas lideradas pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha. Embora existisse, desde o início, uma resistência local e uma participação militar (gaullista e comunista) na luta contra o nazismo, a França sozinha não teria conseguido jamais sua libertação. Isso, somado à vultosa ajuda que recebia dos EUA por meio do Plano Marshall em sua obra de reconstrução, teria disseminado um ressentimento que explicaria, segundo Judt, a doença infantil do esquerdismo pró-stalinista que marcou sua vida intelectual entre 1945 e os anos 60.

No polo oposto, ele destaca a figura de Albert Camus. Nos anos 50, não faltava apenas lucidez para condenar os campos de extermínio soviéticos e os processos fictícios; faltava também uma grande coragem para enfrentar a opinião pública míope, a satanização de uma esquerda que tinha o controle da vida cultural, e a ruptura com seus antigos companheiros da resistência. Mas o autor de O Homem Rebelde não vacilou, afirmando, contra tudo e contra todos, que dissociar a moral da ideologia, como fazia Sartre, equivalia a abrir as portas da vida política ao crime e às piores injustiças. O tempo lhe deu razão, por isso continua sendo lido pelas novas gerações, enquanto a maior parte dos que na época eram os mestres da vida intelectual francesa foi tragada pelo esquecimento.

Um caso muito interessante, que Tony Judt analisa em detalhe, é o de François Mauriac. Resistente desde o primeiro momento contra os nazistas e Vichy, suas credenciais democráticas eram impecáveis na hora da libertação. Isso lhe permitiu enfrentar com argumentos sólidos a maré pró-stalinista e, principalmente, como católico, os progressistas de Esprit e Témoignage Chrétien, que, em muitas ocasiões, como durante a polêmica sobre o Gulag provocada pelos testemunhos de Viktor Kravchenko e de David Rousset, se revelaram meros rapsodos das mentiras fabricadas pelo Partido Comunista francês.

Por outro lado, tanto em suas memórias quanto em seus ensaios e colunas em jornais, antecipou-se a todos os seus colegas ao iniciar uma profunda autocrítica dos delírios de grandeza da cultura francesa, numa época em que - embora muito poucos, além dele, o tivessem percebido - entrava precisamente em um declínio do qual, até agora, não conseguiu sair. Jamais gostei dos romances de Mauriac e, por isso, descartei seus ensaios; mas Past Imperfect, de Judt, me convenceu de que foi um erro.

Entretanto, nem tudo convence no livro. É imperdoável que, além de Camus, Aron e outros, ele não mencione Jean-François Revel que, desde o final dos anos 50, travava também uma batalha muito intensa contra os fetiches do stalinismo, e que não ressalte a denúncia do colonialismo e o apoio às lutas do Terceiro Mundo para libertar-se das ditaduras e da exploração imperialista, que foi um dos cavalos de batalha e talvez o aporte mais positivo de Sartre e de muitos dos seus seguidores de então.

Por outro lado, embora a dura crítica de Tony Judt ao que chama de "anestesia moral coletiva" dos intelectuais franceses seja, no fim das contas, justa, ela omite algo que nós, que de alguma maneira vivemos aqueles anos, dificilmente poderíamos esquecer: a vigência das ideias, a convicção - talvez exagerada - de que a cultura em geral, e a literatura em particular, desempenhariam um papel de primeiro plano na construção dessa futura sociedade na qual liberdade e justiça se fundiriam, por fim, de maneira indissolúvel. As polêmicas, as conferências, as mesas-redondas no cenário da Maison de la Mutualité, o público ávido, principalmente de jovens, que acompanhava tudo isso com fervor, e prolongava os debates nos bistrôs do Bairro Latino e de Saint-Germain: impossível não lembrar sem nostalgia. Mas é verdade que foi bastante efêmero, menos transcendente do que acreditávamos, e que o que então nos pareciam os grandes fastos da inteligência eram, antes, os estertores da figura de intelectual e os últimos lampejos de uma cultura de ideias e palavras, não reclusa nos seminários da academia, mas derramada sobre os homens e mulheres da rua. / Tradução de Anna Capovilla

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.