O passado bate à porta da França

Em sessão com segurança reforçada, Rachid Bouchareb revê em Hors la Loi a luta da Argélia pela independência

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

Havia segurança redobrada, dentro e ao redor do palais, durante todo o dia de ontem. Tudo por causa do filme francês Hors la Loi (Foras da Lei), de Rachid Bouchareb. O diretor de Indigènes voltou à Croisette com a bomba anunciada do 63.º Festival de Cannes. Não admira que, na sessão da manhã, para a imprensa, jornalistas tenham passado por duas revistas, uma antes da subida da escadaria, e outra no lobby do palais. Só que, em vez de filmadoras clandestinas, procuravam-se armas, talvez.

Hors la Loi começa e termina com dois massacres. No primeiro, em Sétig, na Argélia, em 1945, colonialistas franceses disparam suas armas contra os nativos que, após a vitórias dos aliados na 2.ª Guerra, reivindicavam a independência para o seu país. No segundo, no final, uma manifestação pacífica em Paris, nos anos 1960, vira um teatro sangrento. A seleção do franco-argelino Bouchareb, representando a Argélia em Cannes 2010, foi vista como provocação por integrantes do governo Sarkozy.

A direita, nem se fala. Antigos combatentes trouxeram suas medalhas e protestaram nas ruas próximas ao palais. O diretor foi chamado de antifrancês, de fraudar a História. Hors la Loi é interessante porque coloca a questão da (i)legalidade.

Pátria. Narra a história de três irmãos e uma mãe. Expulsos de suas terras, eles partem para a França, onde seguem caminhos diversos. A mãe vira metáfora da pátria. Os personagens, não necessariamente a família, dividem-se entre terroristas que lutam pela independência da Argélia, integrantes das forças repressivas do governo que formam uma organização secreta e um dos irmãos que vira dono de cabaré. Todos, de uma forma ou outra, vivem fora da lei.

Bouchareb fez um filme impactante - para os franceses, pelo menos - e a programação de Hors la Loi para o penúltimo dia do festival pode sugerir que os organizadores quisessem criar clima de comoção. Com raras exceções, reza a tradição que os vencedores da Palma de Ouro passam sempre nos últimos dias do festival. Hors la Loi é meio novelão, tem muita música para enfatizar a ação, mas possui qualidades e não deixa de levantar questões importantes neste festival que, com a paternidade, tem discutido muito a questão da violência, até do terrorismo, e como reagir a ela.

A verdade é que há um terrorismo de Estado em Hors la Loi, como há também em Fair Game, de Doug Liman, sobre a Guerra do Iraque. E há o filme de Olivier Assayas, Carlos, que deveria estar na competição (pois é melhor do que qualquer um dos franceses que competem à Palma de Ouro, leia entrevista com o diretor). Ontem ainda faltavam ser exibidos os dois últimos concorrentes, o filme romeno Tender Son - The Frankenstein Project, de Kornel Mundruczó, e O Sol Enganador 2, de Nikita Mikhalkov (este passa para a imprensa hoje pela manhã).

Na quinta-feira à noite, o tailandês Apichatpong Weerasethakul mostrou Uncle Bonmee Who Can Recall His Past Lives. O diretor de Mal dos Trópicos voltou à competição com um belo filme sobre reencarnação. Estão presentes vários elementos de seu precioso longa anterior - a fascinação pela floresta, a sensualidade. "Api" confirma que é um dos autores mais interessantes do cinema atual.

Previsões. O espanhol Victor Erice, de O Espírito da Colmeia, está no júri e poderá ser sensível ao seu encanto, mas como reagirá o presidente Tim Burton? O festival termina amanhã à noite com a entrega da Palma de Ouro.

Em anos anteriores, mesmo que os resultados, às vezes, surpreendessem, podiam-se arriscar previsões. Com Burton, está todo sem saber nada. É um autor importante, certo, mas que cultiva o bizarro, o gótico. Não existe nada, aqui, que tenha realmente o seu perfil (o filme coreano The Housemaid?). Mas Burton, na coletiva do júri, disse que gostaria de ser surpreendido. Qual será o seu favorito?

Nos quadros de cotações dos críticos, Mike Leigh e Alejando González-Iñárritu têm o maior números de palmas, com Another Year e Biutiful. As atrizes de Another Year, os atores de Hors la Loi, já premiados por Indigènes - seriam premiações acima de qualquer suspeita, mas como esquecer o pai do belíssimo filme chadiano, Um Homme Qui Crie? A verdade é que o júri, e Tim Burton, precisarão de coragem para outorgar a Palma ao melhor e mais impactante filme de 2010, My Joy, do ucraniano Sergei Loznitsa. Outra opção, Copie Conforme, de Abbas Kiarostasmi, também não teve muita repercussão entre a crítica. Há imensa curiosidade, e expectativa, pela premiação.

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