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O parecerista

Imagino a análise de ‘Pulp Fiction’: ‘História sem curva narrativa, diálogos longos...’

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2021 | 03h00

Um amigo roteirista recebeu o e-mail: “Concluímos as leituras por aqui. Pareceristas apontaram que vale trazer mais contornos às jornadas de cada um dos personagens, assim como à curva da trama, e aprofundar o desenvolvimento deles. Sugeriram também reduzir algumas cenas, para trazer mais dinamismo à narrativa”.

Em outras palavras. O projeto de série que ele enviou a um streaming foi recusado. Por quem? Por um parecerista. Que são? Mistério. 

São a praga do audiovisual brasileiro: muitos produtores não leem roteiros e entregam a assistentes para avaliar a obra; a maioria deles tem conhecimentos estreitos sobre o tema, leram o mesmo livro (Story, de Robert Mckee), utilizam os mesmos chavões.

O problema é que roteirista é uma raça unida, fofoqueira, tem grupos, entidades, encontros, os boêmios bebem num mesmo bar. Mostramos uns para os outros os pareceres que recebemos. São todos idênticos e usam os quatro jargões do ofício: “aprofundar”, “desenvolvimento”, “jornada” e “curva”.

Perdi a conta de quantas vezes recebi pareceres com essas mesmas palavras. Dou risada. Viram piada. Deve ser um algoritmo que nos escreve. A praga cresceu, porque o negócio aumentou na proporção da procura e do cerceamento das leis de incentivo. 

As produtoras, que antes tinham autonomia, respondem a outros, os players, asfixiados em projetos do Brasil todo (Globoplay, Netflix, Prime, Apple TV, Disney com Fox, HBO Max, Paramount+, Startzplay e outros). Não dá tempo para ler tudo. Precisam terceirizar.

Existe o parecerista produtor, aquele, como os do MinC, recém-demitidos, que analisa a papelada, ajuda, analisa orçamentos, indica leis, aprova projetos. Esses são os nossos heróis desconhecidos. O problema é o parecerista opinativo. 

Na pré-produção de A Glória de um Covarde, de John Huston (1951), sobre um recruta na guerra civil americana que deserta e se arrepende, os produtores enviavam de LA pareceres de psicólogos sobre a psique de um covarde.

O cineasta nem abria o envelope e jogava no lixo. Cena imitada por Don Draper em Mad Men, que descartava os relatórios do departamento de pesquisa sobre o produto que ele, gênio da propaganda, anunciaria.

Mad Men ficou anos presa, rodando entre pareceristas da HBO, até mudar de emissora e virar a melhor série de todos os tempos. A série de maior sucesso da Netflix, Squid Games, que no Brasil se chama Round 6, para evitar polêmicas na conturbada política nacional (squid é lula em inglês), ficou dez anos na gaveta.

Se você escuta escritores e diretores talentosos de um lado te falando “isso é bom”, por que duvidar?

Na literatura, existem editores e pareceristas. Editores leem os manuscritos, palpitam, aceitam ou dispensam. O clássico beat On the Road rodou até ser publicado. Paulo Coelho foi ignorado na primeira edição de O Alquimista, insistiu e encontrou no editor Paulo Rocco um padrinho. Tornou-se o livro brasileiro mais vendido de todos os tempos.

Até o meu Feliz Ano Velho foi recusado por pareceristas de peso da Editora Brasiliense. Que me confessaram anos depois às gargalhadas. São meus grandes amigos e atuais editores. O livro só saiu porque o chefe deles, Caio Graco, quem o encomendou, insistiu.

Aliás, um caso notório no meio foi a recusa da parecerista da Companhia das Letras à série de livros Harry Potter. Dizia que histórias de bruxos no Brasil não colavam. O editor passou pra frente. Perdeu milhões.



Imagino um parecerista analisando Pulp Fiction: “História sem curva narrativa, diálogos longos, excessivos, que não interferem na trama, e personagens cujas jornadas não ficam claras”.

Casablanca: “O herói, Rick, não chega do ponto A ao B, não tem curva. É um alienado, que não quer se envolver, mas acaba se livrando do problema, e nem é punido. Vira amigo do repressor. A história precisa ser mais desenvolvida”. 

Certa vez, entreguei o roteiro de um filme a um streaming, que o enviou a um parecerista, que meteu o pau no protagonista, chamando-o de inconsequente, contraditório, fútil, ingrato. 

O problema foi que o personagem era real, e o produtor desavisado lhe enviou uma cópia. O cara não só retirou o projeto como queria matar o parecerista. Aliás, eu também.

Há produtores que dispensam pareceres. Rodrigo Teixeira aposta no próprio faro. Tem uma rede de contatos com as editoras. Quando sabe de um livro ainda sendo revisado que o interessa, se adianta e compra os direitos. Tornou-se o maior e mais premiado produtor brasileiro de audiovisual.

Já fez de tudo, até filme pornô chique em 3D, Love, do genial Gaspar Noé, com direito a ejaculada na lente, que assusta a plateia. Uma aposta incrível ele fez com A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, premiado em Cannes.

Chegou aos seus ouvidos, viajando num feriado prolongado com os filhos, o livro em preparação da escritora Martha Batalha. A produtora Nina Kopko o enviou a ele em PDF. 

Ele leu numa sentada, se encantou, mandou pro Karim, “você tem que fazer”, para o roteirista Murilo Hauser, “você tem que adaptar!”, e para a Companhia das Letras, “vocês têm que editar!”. Podia ter mais como ele. 

*

Na semana que vem, minha coluna passa a ser publicada às sextas-feiras. Sextaremos juntos.


É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

 

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