O paraíso invertido de Lezama Lima

O autor de Paradiso, cujo centenário de nascimento transcorre amanhã, explorou nesse romance a estética barroca, criando um mundo onde o que importa são apenas as imagens poéticas

Carlos Granés, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

A poesia é o paraíso da linguagem. Essa foi uma definição de Paul Valéry, mas também poderia ter saído da pena de José Lezama Lima (1910-1976). O escritor cubano prestou uma homenagem àquela frase com uma obra literária que se fundamenta exatamente nela, criando um mundo à parte, paradisíaco, onde a linguagem é soberana e o escritor tem absoluta liberdade para fazer experiências com as palavras. Embora Lezama Lima seja principalmente um poeta, o apogeu e a síntese do seu mundo é Paradiso, um extraordinário romance no qual trabalhou lentamente, desde o fim dos anos 40 até meados dos 60, pondo em prática sua estética barroca e a sua maior ambição: criar um sistema poético do mundo, onde os atos humanos, as reflexões pessoais, as ideias ou a lógica causal não importam, o que conta são apenas as imagens poéticas.

E é essa sucessão de imagens que faz de Paradiso uma das experiências literárias mais fabulosas e difíceis. Difícil porque as metáforas corroem a realidade até que ela desaparece, deixando-nos à deriva num oceano de palavras que não têm nada a ver com o mundo factual. E é fabulosa porque, ao mesmo tempo que nos sentimos à deriva, navegamos, imperceptivelmente, num universo novo, alheio à racionalidade e à causalidade, guiado pelo que Lezama Lima chamou de "incondicional poético", repleto de sensações e efeitos resplandecentes produzidos pela pirotecnia verbal. Esta enorme construção barroca, formada de metáforas, analogias, semelhanças e hipérboles que nascem umas das outras, que se reproduzem, se ramificam e se elevam até explodir como bolhas de sabão, situa-se numa zona onde as ferramentas da razão são de pouca utilidade. Em Paradiso predominam os ecos, as labaredas visuais e as impressões olfativas, como se os personagens, em vez de refletir e agir, vivessem em estado de transe, entregues ao ato de sentir e interpretar suas experiências à luz da cultura universal.  

 

 

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Embora a trama de Paradiso não seja o ponto mais relevante, vale a pena recordá-lo. O romance conta como surgiu a vocação poética de José Cemí, um menino asmático que encarna a própria experiência pessoal de Lezama Lima. O fato mais significativo da sua infância é a morte do pai, o Coronel José Eugenio Cemí, que se encontrava numa missão no acampamento de Forth Barrancas, em Pensacola. A partir desse dia, José Cemí submerge no mundo materno e ali, lentamente, começa a descobrir sua paixão pela literatura. À medida que cresce, esse processo é acompanhado por seus dois amigos, Foción e Fronesis, e por um personagem enigmático, com pouca presença no romance, chamado Oppiano Licario. O Coronel conheceu Oppiano Licario no hospital e, antes de morrer, pediu-lhe que ensinasse a seu filho tudo o que aprendera nas suas viagens, leituras e sofrimentos. Licario cumpre a tarefa de modo indireto, inspirando José Cemí a distância, atuando como mentor e guia espiritual. No fim do romance vamos encontrar um José Cemí maduro, totalmente consciente da sua paixão pela poesia e preparado para escrever seus primeiros versos.

O que surpreende é que a história transcorre desde fins do século 19 até meados da década de 30, mas há poucos comentários sobre a situação política e social de Cuba. O que há são breves referências às lutas de independência contra a Espanha e as revoltas estudantis de 1930 para derrubar o ditador Gerardo Machado, e aí se esgotam os eventos históricos. Em compensação, Lezama Lima concentra-se na vida cotidiana e nas aventuras da família Olaya. Toda a experiência dos personagens é transfigurada pela analogia fantasiosa. Lezama Lima enaltece com a metáfora cada ato, desde o mais simples ao mais complexo, transformando a vida dos seus personagens em grandes realizações poéticas. Em Paradiso, o Coronel não tem sonhos: suas pálpebras se fecham "sob o peso de anêmonas soníferas". A pena usada por Fibo não é um simples instrumento para escrever, mas "uma aberração satânica do barroco carcerário". Quando Mela resolve alguma situação, "é como um esquadrão de aqueus que passa ululando para os navios de proas de cobre".

O conhecimento, a cultura universal, os mitos, heróis e as conquistas artísticas de todas as civilizações, desde a inca até a grega, desde a hindu até a asiática, se mesclam com a tradição crioula e a gíria popular cubana para encher o espaço narrativo. A vida cotidiana adquire uma dimensão lírica, enobrecida pelo símile e a referência ao mito homérico, ao registro erudito e à imagem surrealista. Lezama Lima revolve toda a experiência cubana, embelezando-a com o enorme conhecimento que acumulou ao longo dos anos. Como Borges, ele leu muito e viveu pouco. Foi um "peregrino imóvel", que durante a vida adulta saiu de Cuba apenas duas vezes, para o México e a Jamaica, e por poucos dias. Contudo, o mundo todo está em Paradiso. Através dos livros o autor impregnou-se de todo conhecimento humano e com esse material quis criar uma imagem mítica de Cuba, em que se fundem o regionalismo crioulo e a onisciência universal, o falatório da vizinhança e a epopeia homérica.

Anjos caídos. Nesse sentido, o paraíso de Lezama Lima é bem diferente do jardim do Éden do mito judaico-cristão. Poderíamos dizer, até, que o seu é um paraíso invertido. José Cemí e os demais personagens, longe de viver num estado de inocência primitiva, respiram um ar carregado de sexualidade e conhecimento. Há uma imagem, no início do terceiro capítulo, em que ele recria a cena mítica do roubo do fruto proibido. Rialta, a mãe de José Cemí, desliza pelos galhos de uma árvore para arrancar um punhado de nozes. Diferentemente do que ocorre no Éden, ninguém é expulso deste Paradiso. Fronesis e Foción são iniciados no conhecimento e no sexo. Vivem uma delicada existência consagrada a deslindar os diálogos de Platão e decifrar os enigmas da sua sexualidade, o primeiro com uma mulher, o segundo com um homem. Ambos são os novos anjos caídos que não têm motivo para se rebelar porque, neste paraíso, as suas inclinação não são um vício, mas uma virtude.

O paraíso invertido de Lezama Lima assemelha-se ao Jardim das Delícias, de El Bosco, e por isso elementos fantásticos penetram nele, como o enorme falo rodeado de damas romanas que desfila entre os estudantes rebelados, ou o crítico musical de 114 anos que permanece adormecido e exposto em uma urna de cristal durante meio século. Neste paraíso também existe morte, perdas, doenças, inconformismo e sofrimento, mas não pecado. Todas as paixões de Lezama Lima - o amor pelo conhecimento, a homossexualidade, a vocação poética - são lícitas. O poeta aproveitou seu talento e esforço para corrigir as falhas do paraíso original e moldá-lo à sua própria visão da terra prometida. Lezama Lima estava convencido de que a poesia tinha o poder de substituir a história. Em La Expresión Americana, um dos seus livros de ensaios, ele afirma que são as imagens poéticas, não a tumultuada experiência de épocas passadas, que sobrevivem ao tempo. Dos etruscos, carolíngios ou bretões o que nos chegou foram a sua imaginação, as metáforas e sínteses que fizeram da sua experiência e que acabaram por se impor à realidade histórica. Paradiso foi escrito com o mesmo objetivo: negar a realidade e a história e contrapor a elas uma imagem mítica de Cuba, onde a única preocupação dos seus habitantes é o conhecimento e as musas, onde o herói é o poeta e a sua vocação, onde a experiência mais simples e cotidiana é realçada pela magia da analogia.

Passaram-se 44 anos desde que Paradiso foi publicado e 100 anos desde o nascimento do poeta. É muito cedo para afirmar que a imagem criada por Lezama Lima substituiu a de uma Cuba real. Talvez pedir a um romance uma tal façanha seja demasiado. O que não há dúvida é que o esforço titânico de Lezama Lima resultou num dos romances mais pessoais e audaciosos da literatura hispano-americana, onde o centro do mundo é Cuba e toda a história e a cultura universal se convertem num ornamento para transformar a existência em poesia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

CARLOS GRANÉS É DOUTOR EM ANTROPOLOGIA SOCIAL PELA UNIVERSIDADE COMPLUTENSE

DE MADRI, AUTOR DE LA REVANCHA DE LA IMAGINACIÓN - ANTROPOLOGÍA DE LOS

PROCESOS CREATIVOS: MARIO VARGAS LLOSA Y JOSÉ ALEJANDRO RESTREPO (CONSEJO

SUPERIOR DE INVESTIGACIONES CIENTIFICAS DE MADRID) E ORGANIZADOR DE SABRES &

UTOPIAS - VISÕES DA AMÉRICA LATINA (EDITORA OBJETIVA)

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