O paradoxo da transgressão domesticada

Voz singular anunciada na estreia de Juliana Frank transforma-se em conteúdo previsível em novo título

João Cezar de Castro Rocha,

14 Setembro 2013 | 02h18

Em 2011, Juliana Frank publicou Quenga de Plástico, livro instigante composto por capítulos curtos como posts de um blog imaginário, ou pelo menos podiam assim ser lidos. Nas palavras da narradora, a ex-atriz pornô Leysla Kedman: "Escrever crônicas é escrever sobre temas atuais. E por acaso existe algum tema mais atual do que EU? (...) Também fiz um blog porque sei o quanto sou interessante". Dupla paródia.

De um lado, a prosa afiada alvejava a onda narciso-exibicionista do modelo do blog. De outro, satirizava as garotas de programa convertidas em celebridades por expor sua "privacidade" para um público cujo voyeurismo tornou-se autêntica respiração artificial.

Por isso, Quenga de Plástico anunciou uma voz singular. Meu Coração de Pedra-Pomes, contudo, pouco acrescenta ao livro anterior. Seu pretenso prefácio, "Exijo uma explicação!", explicita o problema maior da autora: a autoindulgência com jogos de palavras pouco surpreendentes. Além disso, ela aposta em noção paradoxalmente domesticada de transgressão.

Leia-se um dos achados de "Exijo uma explicação!":

"- Inveja do falo!

- Estima do falo!

- A literatura acabou!

(Silêncio da autora)"

À dicção surreal-vanguardista corresponde o afã de transgressão a todo custo, embora reduzida a conteúdo previsível. O anacronismo da opção revela o limite do projeto: como escrever numa linguagem padrão, sem força inventiva, e pretender uma literatura transgressora? Será que se pode postular algum conteúdo tão transgressor que dispense o trabalho rigoroso com a linguagem? O título do livro é didaticamente explicado: "me tranco no quarto para fazer macumbas com toda a força do meu verdadeiro coração de pedra-pomes que pensa que pensa".

A personagem-narradora de Meu Coração de Pedra-Pomes, Lawanda, é faxineira de um hospital e oferece todo tipo de serviço alternativo aos pacientes cujos desejos coincidem com o seu propósito de romper tabus.

Vejamos os casos mais "escusos" de Lawanda. Há um velho paciente que ambiciona fugir por uma noite. Porém, morre na véspera. A narradora encara o óbito filosoficamente: "Achei mesmo bom não ter ido com o velho traquinas ao show de Cauby. Seria a experiência mais monótona da minha malfadada existência".

Outra paciente é mais ousada. Encontra-se internada para tratar de "famigerado herpes genital" e contrata Lawanda para obter um encontro com seu namorado: "Chegamos ao andar em que a infectada espera pelo falo abrasador de seu amante. Vai lá, come ela e bota esforço".

Pois é.

Os impasses do livro esclarecem o anacronismo de um conceito ingênuo de transgressão numa época em que nada mais parece capaz de chocar.

Eis, então, o eterno retorno da diferença que realmente conta: em literatura, e pouco importa a época, a transgressão mais radical é sempre a invenção com a linguagem.   É professor de literatura comparada da Uerj, autor de 'Machado de Assis: Por uma Poética da Emulação'

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.