O papo nem tão furado entre mulheres do Irã

Com bom humor, Marjane Satrapi detalha, nos desenhos de Bordados, a difícil condição feminina de seu país

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Marjane Satrapi tem o dom de condensar uma história trágica em uma animada sequência de quadrinhos - é o que confirma Bordados (tradução de Paulo Werneck), que a Companhia das Letras lança esta semana. Filha de uma família de intelectuais iranianos, ela foi apressadamente enviada para Viena, na Áustria, quando estava com 14 anos - os pais temiam que as ideias radicais da menina provocassem sérios problemas com o fundamentalismo que se espalhava pela capital Teerã.

No exílio, ela criou sua obra principal, a série Persépolis, que inspirou um filme do mesmo nome, candidato ao Oscar de animação. Ali, ela mostra como foi sua infância no Irã, em meio à guerra, assassinatos e torturas. Já Bordados, embora também contundente, apela mais para o bom humor ao retratar a intimidade das mulheres iranianas e suas revelações sobre sexo, casamento e vida familiar sob um regime opressor.

Ambientadas em uma série de conversas informais entre os membros femininos da família da autora e suas amigas, as histórias de Bordados mapeiam a vida de três gerações de mulheres no Irã através de anedotas de amor, sexo e dor. O papo versa sobre tabus em uma sociedade com visão muito particular sobre a condição feminina - desde sêmen, lâminas de barbear e maridos gays até direitos das mulheres, sempre com muita graça. Marjane impõe-se um desafio ao utilizar um tom relaxado para tratar de temas delicados como as representações do véu, casamentos arranjados e estranhas superstições sexuais.

A começar pelo título, bem traduzido para o português e que, além do significado trivial (trabalho manual feito com linha e agulha) e do figurativo (conversa corriqueira), também expressa a cirurgia vaginal destinada a restaurar a sensação de virgindade, uma solução para se evitar crises matrimoniais logo depois da cerimônia. Claro que nem sempre a tentativa dá certo, como mostram os quadrinhos reproduzidos nesta página.

Mistura de autobiografia e ficção, o formato de Bordados permite que a trama respire e evite enveredar para uma bocejante discussão sobre as diferenças entre Ocidente e Oriente. Ao contrário - assuntos típicos de fofocas, como o tamanho do nariz feminino e a eficiência de cirurgias plásticas, inspiram discussões divertidíssimas. Mas é inevitável a presença de personagens estereotipados, como a avó sábia e experiente e a mulher sexualmente frustrada.

O Irã, para Marjane Satrapi, continua um lugar de aventura e mistério, mas, ao mesmo tempo, é seu lar primordial. Mesmo a distância, ela consegue domar a emoção e impedir que a ruptura tenha também afetado sua alma. Assim, consegue, às vezes em um único quadrinho, revelar sua hábil capacidade e despertar emoções tão distintas como amor e ódio.

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