O palco visto como cenário do imprevisível

Hélène Grimaud se atira sem medo nos contrastes de peça de Beethoven

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2013 | 02h09

Além da beleza felina, a pianista francesa Hélène Grimaud é uma pianista excepcional, que faz do palco a arena de saltos mortais sem rede. Anteontem, na Sala São Paulo, este gosto pelo risco ficou claro em sua personalíssima leitura do Concerto nº 5 para Piano e Orquestra de Beethoven, uma das obras mais conhecidas da história da música. La Grimaud estica os contrastes dinâmicos, faz ritardandos encantadores (no sublime Adagio un poco moto) e retomadas entusiasmantes (sobretudo no rondó final). E tem um toque sedutor, capaz de filigranas em pianíssimo e convicção nos imensos acordes em fortíssimo sem perder de vista a arquitetura do concerto.

Ousadias que soariam forçadas, não fosse a ajuda decisiva de Stéphane Denève - mais um maestro que estabelece forte empatia com os músicos da Osesp e obtém resultados muito bons em apenas três dias de ensaios.

Desde os primeiros compassos do Allegro inicial entende-se por que lhe deram à peça o apelido "Imperador". Um crítico que assistiu à estreia em 1811 disse dele que "é o mais original, o mais pleno de imaginação e de efeitos, mas também o mais difícil de todos os concertos". O primeiro historicamente em que o compositor escreveu a cadência, até então improvisada. O primeiro a iniciar-se com uma imponente cadência do piano sobre um grande acorde sinfônico.

Quando terminava o Adagio, em abril de 1809, Beethoven soube da declaração de guerra da Áustria a Napoleão Bonaparte. A invasão da Áustria pelas tropas napoleônicas consumou-se em outubro daquele ano. Respirava-se patriotismo em todos os cantos. Daí o caráter majestoso, o tom militar e o tratamento inovador de ritmos bélicos, motivos de vitória, melodias impetuosas e caráter afirmativo, que levaram terceiros a apelidar o concerto de "Imperador". O compositor admitia no máximo a expressão "Grande Concerto".

À convicção bélica do toque de Grimaud no Allegro seguiram-se momentos admiráveis no Adagio, em que a pianista chegou a levantar a cabeça e assim permanecer por vários segundos, numa quase atitude de prece angustiada, como pedia a angelical melodia beethoveniana. Num texto de CD, aliás, Grimaud diz que "ele articulou a ambivalência de cada indivíduo; é por isso que a música de Beethoven nos afeta de forma tão direta e desconcertante, mostrando um otimismo incorrigível".

Mas o pesquisador americano Scott Burnham é mais incisivo: "Ele continua a nos estimular, a nos provocar e não podemos deixá-lo ir embora porque sua música permanece uma provocação sonora que nos coloca diante do que adoramos pensar que é o melhor de nós mesmos".

Boa parte do público - o que lá compareceu só pra ver a pianista - foi embora depois que "adorou pensar" que "Beethoven é o melhor de nós mesmos". Não deveria, porque a segunda parte valeu a pena. Os interlúdios da ópera O Sacrifício, composta em 2007 pelo escocês James MacMillan, são música interessante - e mais ou menos bem comportada, como recomenda a tradição inglesa. Antes da suíte Baco e Ariana de Albert Roussel, mais um magote de espectadores retirou-se. De novo, uma pena, porque o francês escreve música também interessante - e até mais atrevida que a de MacMillan, se levarmos em conta que Roussel a escreveu em 1930. Dela extraiu duas suítes, de estrutura praticamente sinfônica. Por isso a segunda suíte soa tão coesa. Com justiça, é sua obra mais conhecida e tocada. Denève gravou em 2010 para a Naxos a integral da obra sinfônica de Roussel com a Orquestra Real Escocesa.

Em MacMillan e Roussel, o regente demonstrou por que é um dos preferidos da Osesp. Se há um ponto comum entre os dois compositores, estes são os triplos fortíssimos, que eles adoram; ambos, igualmente, sabem escrever para orquestra. Mas sua música não é, como a de Beethoven, "provocação sonora" à qual precisamos sempre retornar para sentirmos que ela é "o melhor de nós mesmos".

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