'O palco vazio é como um espaço sagrado'

Para o criador de A Primeira Vista, teatro deve relativizar, com o mínimo de recursos, as noções de tempo e espaço

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2013 | 02h07

Simples, trágica, cômica, humana e calcada naquilo que o teatro tem de insuperável: ator e texto. Assim é reconhecida a obra do dramaturgo canadense Daniel MacIvor, que também é ator, roteirista e cineasta. Em suas peças, se o cenário é escasso, a iluminação torna-se vital na condução da trama, acompanhada pela trilha sonora. Tudo, na verdade, existe em função do ator, o centro do universo criado por MacIvor.

Basta admirar seus espetáculos montados no Brasil - In On It, A Primeira Vista e Monster -, dirigidos por Enrique Diaz. Na primeira, montada em 2010, dois atores contam com a cumplicidade do público para desvendar o fazer teatral. A Primeira Vista, em cartaz no Sesc Pompeia, mostra a amizade entre duas mulheres, marcada por encontros e desencontros. E Monster, cuja montagem está em processo de criação, traz apenas um ator (o próprio Diaz), que tem a missão de manipular as vozes de várias figuras: um homem, um casal, um menino. Em todas, a plateia é convidada a participar de uma maravilhosa viagem cênica, sob o comando dos atores.

Adepto do minimalismo e fundador de uma famosa companhia canadense, a da da kamera, MacIvor respondeu por e-mail as seguintes questões.

Vejo A Primeira Vista como uma história de amor sobre a

amizade. Em que o senhor se

inspirou para escrever a peça?

Em primeiro lugar, eu queria trabalhar com as duas atrizes que estrearam a peça para mim. Adoro atores e o que eles conseguem fazer quando se entregam com a máxima disposição ao trabalho. Quanto ao tema, existem rótulos que considero falsos. A expectativa é de que nós, ou nosso relacionamento com uma pessoa, portemos um título que sirva de atalho para todos identificarem o que somos e o que esse relacionamento significa. Isto gera divisões e nos insere em grupos que não significam nada. E também define o que pensamos que somos e limita o que podemos nos tornar. Os seres humanos são ao mesmo tempo mais complexos e mais simples do que os rótulos indicam.

Um outro elemento de A

Primeira Vista é aquilo que

vemos quando olhamos para a pessoa que amamos.

De certa maneira, A Primeira Vista refere-se à pessoa que vemos em nós mesmos por meio dos olhos da pessoa que amamos. O que nos tornamos na visão dela, aquilo que há de melhor em nós. E também a visão da morte. Gostaria de imaginar que as duas visões são a mesma coisa.

Muitas das suas criações são bem peculiares, especialmente por causa do cenário minimalista, assim como das mudanças de tempo, localização e personagens, que usam simplesmente iluminação, som e movimento. De onde surgem suas ideias?

Acho que o teatro vazio é um local perfeito e sagrado. Qualquer coisa que inserimos neste espaço tem de ser essencial para conservar o espírito do teatro puro. As noções de tempo e espaço também são criações humanas e o teatro é o lugar perfeito para expor a superficialidade destas ideias.

O seu teatro pós-modernos e minimalista tem muitos seguidores em todo o mundo. Por que, na sua opinião, esta é uma forma muito eficaz de narrativa teatral?

A simplicidade abre espaço para a plateia trazer suas próprias histórias, suas próprias lembranças, para a peça. As pessoas conseguem se ver quando você dá a elas uma oportunidade para isto.

O senhor se considera

um artista político?

Abordo a luta pela tolerância, a difícil jornada na direção da bondade, uma tentativa de aceitar o que está sucedendo no momento como o ideal. Estas ideias seriam, talvez, políticas?

O senhor expõe nossas

imperfeições através dos

seus personagens. Esta é a

obrigação deum artista?

Como disse Tennessee Williams, toda imperfeição que você vê nos meus personagens é uma imperfeição que vejo dentro de mim.

O senhor acredita que, para escrever, é necessário ter uma estabilidade emocional? Ou consegue trabalhar seja qual for seu estado de espírito?

Às vezes sinto que nasci para a escrita. Ela é tudo o que sou e quando não estou escrevendo estou apenas preenchendo o tempo até surgir a oportunidade escrever novamente. O fato é que, quando escrevo, me sinto mais eu mesmo e mais à vontade. Escrever é uma condição que independe do meu estado de ânimo. E este estado perfeito a que você se refere não é constante ou seguro. É uma espécie de zona deque entro e saio. Uma zona em que o tempo desaparece e em que estou totalmente concentrado.

Suas histórias com frequência possuem ao mesmo tempo uma sensibilidade burlesca e um elemento mais sombrio. É assim que o senhor vê o mundo?

Como afirmam os budistas, a maneira perfeita de ver a vida é por meio de lágrimas de alegria, ou seja, alegria diante da beleza de todas as coisas e lágrimas por saber que tudo é temporário. Mas acho que é também rir da maneira como levamos tudo a sério quando as coisas são muito simples.

David Slone Wilson, no seu

ensaio Evolutionary Social

Construction, observa que nós nos construímos e reconstruímos para atender às necessidades das situações com as quais nos deparamos. Agimos assim guiados pelas nossas lembranças passadas e nossas esperanças e temores do futuro. O que o senhor acha disto?

É também como em Jacques Lacan, para quem o ego existe apenas como reflexo. Nós nos tornarmos o que somos com base naquilo que somos para outras pessoas. Acho que existe alguma coisa que é constante, uma energia, uma luz, um fogo comum a todos nós e que tem muito pouco a ver com nossas lembranças, esperanças ou temores. Que está além de si mesmo. E isso é revivido no teatro, quando estamos todos juntos. E é também a razão pela qual o teatro é o local perfeito para explorar ideias sobre si mesmo e a existência. O local onde a reconstrução do ser humano na sua individualidade é um trabalho do ator e a expressão da lembrança, da esperança e do medo é trabalho do cenógrafo, do diretor e do dramaturgo. E ao ver e experimentar tudo isto, conseguimos enxergar alguma luz, sentir algum entusiasmo.

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