Paulo Liebert/ Estadão
Paulo Liebert/ Estadão

O palco coletivo de Bob Wilson

Em 'A Dama do Mar', clássico de Ibsen adaptado por Susan Sontag, diretor americano trabalha com elenco nacional

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2013 | 02h07

É impossível fazer um retrospecto das artes cênicas no Brasil em 2012 sem evocar o nome de Robert Wilson. No último ano, o diretor norte-americano marcou presença por aqui: em São Paulo, apresentou dois espetáculos ao lado da histórica cia. alemã Berliner Ensemble e realizou uma ópera, em parceria com o Teatro de Bolonha.

Em 2013, o vínculo do encenador com o País não só se mantém, como se torna ainda mais estreito. Na quinta-feira ele estreia, no Sesc Santos, uma montagem com elenco inteiramente brasileiro. Espetáculo que, a partir do dia 25, também poderá ser visto no Sesc Pinheiros.

A obra escolhida por Wilson para a empreitada é A Dama do Mar, o clássico de Henrik Ibsen. Em 1998, Susan Sontag escreveu uma adaptação do texto especialmente para Wilson. O resultado foi visto pela primeira vez na Itália e, desde então, já ganhou cores locais em alguns países: Espanha, Coreia, Polônia e Noruega.

No Brasil, Wilson realizou uma audição no começo do ano para selecionar os atores. Escolheu intérpretes conhecidos no cenário teatral paulistano: Ligia Cortez, Bete Coelho, Ondina Castilho, Hélio Cícero e Luiz Damasceno. Também propôs uma novidade: dividir o papel da protagonista, Élida. "Essa opção deu à peça um caráter muito interessante. Não existe protagonismo, mas um sentido de coletividade", acredita Ligia, que divide com Ondina o posto de personagem título.

Os ensaios começaram no começo de abril. Mas Wilson só chegou na semana passada para acertar os detalhes. Antes, quem conduziu o projeto foi o codiretor Giuseppe Frigeni. "Como ele já fez esse espetáculo em outras ocasiões, tudo já estava pensado: a movimentação, a luz, as intenções. É um trabalho muito minucioso", conta Ligia, durante uma das raras pausas antes da estreia da obra.

São traços notórios da arte de Bob Wilson o rigor extremo com que utiliza a iluminação e os movimentos em cena. Desde a década de 1960, subverteu a maneira de se compreender o teatro, ao desvincular a encenação do texto dramático e criar obras que surpreendiam pelo apelo visual.

"O que faço de melhor é criar estruturas", diz Wilson. Não por acaso, o diretor se encarrega pessoalmente da luz em cada um dos seus espetáculos. E encomendou, para esta criação, figurinos desenhados pelo estilista Giorgio Armani. "Os meus trabalhos sempre se estruturaram de forma abstrata. Esse tem sido o meu modo de trabalhar. Aprender a ouvir o silêncio. Compreender o movimento e a imobilidade."

Ainda que valorize o silêncio, não dá para dizer que o diretor prescinda dos sons nessa criação. "Creio que todos os elementos são igualmente importantes na minha obra, seja um texto falado, uma imagem ou uma música", considera.

O texto assinado por Sontag ocupa lugar de relevância na montagem. A escritora condensa o enredo de Ibsen em 17 cenas. Coloca em cena apenas cinco personagens falantes. E se utiliza, sobretudo, de monólogos. "Tudo o que existe em cena está em função da história a ser contada. Todas as coisas têm um significado", observa Ligia.

Escrito em 1888, o drama original trata da história de Élida, casada com um médico medíocre, mas apegada à ideia da paixão por um estrangeiro. Um embate entre a segurança da vida burguesa e a aventura. Uma discussão, em última instância, sobre o livre arbítrio.

Apesar de iluminar questões candentes do século 19, como a liberdade feminina, a peça é considerada também como obra inaugural da fase simbolista de Ibsen. Em cada frase existe, para além do sentido imediato, um desdobramento místico, uma abertura para o mistério e o incompreensível.

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